VERDADE E MÉTODO E O HORIZONTE HERMENÊUTICO DO SENTIDO - Drd. Lopes de Almeida

VERDADE E MÉTODO E O HORIZONTE HERMENÊUTICO DO SENTIDO

RESENHA CRÍTICA
Drd. Cídio Lopes de Almeida
Cientista da Religião e Filósofo
Março de 2026

Obra resenhada: GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 3. ed. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1999.

1 INTRODUÇÃO

A obra Verdade e Método, do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer, publicada no Brasil pela Editora Vozes, representa um dos marcos fundadores da filosofia contemporânea. Ao longo de suas extensas análises, Gadamer não se propõe a redigir um manual de regras interpretativas ou uma cartilha metodológica para as ciências humanas, mas sim a investigar as condições universais da compreensão humana. O presente ensaio crítico tem o objetivo de explorar a concepção gadameriana de hermenêutica, demonstrando de que modo o autor desloca o eixo da busca pela verdade do rigor metódico das ciências exatas para a experiência histórica e linguística. Em especial, analisaremos em que sentido a hermenêutica atua como um "horizonte de sentido", revelando que o significado de uma obra não é uma substância inerte e fixa no próprio texto, mas um acontecimento vivo que se realiza de forma contínua no processo de sua interpretação e extração.

2 A NATUREZA DA HERMENÊUTICA PARA GADAMER

Para compreender o que é a hermenêutica na visão de Gadamer, é imperativo despojá-la de sua roupagem oitocentista. Historicamente, desde Schleiermacher e Dilthey, a hermenêutica foi pensada como uma "doutrina da arte" do compreender, um esforço para fornecer às ciências do espírito (ciências humanas) uma objetividade metodológica análoga àquela das ciências na natureza. Gadamer rejeita veementemente essa premissa. Ele assevera, de antemão, que sua intenção nunca foi desenvolver um sistema de regras artificiais que pudesse descrever ou guiar o procedimento metodológico das ciências do espírito. Pelo contrário, sua investigação tem uma intenção eminentemente filosófica, questionar não o que fazemos ou o que deveríamos fazer com os textos, mas sim o que, ultrapassando nosso querer e fazer, nos sobrevém e nos acontece na compreensão¹.

Nesse sentido, a hermenêutica para Gadamer não é uma ferramenta metodológica, mas uma dimensão ontológica. Apoiando-se na analítica existencial de Martin Heidegger, Gadamer pontua que a compreensão não é apenas um comportamento do sujeito entre outros, mas o próprio modo de ser da pré-sença (Dasein) humana². A hermenêutica designa, portanto, a mobilidade fundamental da existência, a qual compõe a sua finitude e a sua historicidade, englobando a totalidade de sua experiência de mundo. Trata-se da revelação de uma experiência de verdade que ultrapassa o campo de controle da metodologia científica, manifestando-se de forma eminente na experiência da filosofia, da arte e da própria história.

A hermenêutica torna-se universal, pois o movimento da compreensão não se restringe a decifrar códigos antigos ou desvendar intenções de autores mortos; ela lida com a nossa abertura fundamental ao outro e ao mundo. A compreensão está aquém de qualquer método científico, pois precede e possibilita qualquer comportamento metódico e normativo.

3 O HORIZONTE DE SENTIDO: O PROCESSO VERSUS O TEXTO FIXO

Se a compreensão é o nosso modo de ser no mundo, o que ocorre com o "sentido" de um texto? Para a consciência objetivista e historicista clássica, o sentido de um texto é uma entidade fixa, trancada na mente de seu autor ou no contexto de seus leitores originais, cabendo ao intérprete "reconstruí-lo" através do método. Gadamer procura superar essa ilusão de neutralidade objetiva e introduz a hermenêutica como o verdadeiro horizonte de sentido, estabelecendo que se há um sentido, ele se materializa fundamentalmente no processo de sua extração, e não como algo engessado no próprio texto.

O sentido de um texto não se esgota nas intenções de seu autor; na verdade, o significado de uma obra frequentemente supera seu criador. Para ilustrar como o sentido reside no processo da experiência hermenêutica, Gadamer vale-se magistralmente do conceito ontológico de jogo (Spiel). Ele demonstra que o sujeito do jogo não são os jogadores, mas o próprio jogo, que apenas ganha representação através daqueles que jogam³. Assim como um jogo não existe senão no momento em que é jogado, uma obra de arte ou um texto literário não possui uma existência estática e completa independentemente de quem a recebe.

Gadamer aprofunda essa ontologia da obra de arte argumentando que ela encontra o seu verdadeiro ser ao se tornar uma experiência que transforma aquele que a experimenta. Um drama musical ou uma peça teatral precisa da encenação, precisa ser "executada", para existir de fato. De modo análogo, Gadamer conclui que o mesmo é válido para a literatura e para os textos do passado. A leitura pertence essencialmente à obra de arte literária, tanto quanto a execução pertence à música. Todo ato de leitura silenciosa contém, no fundo, uma re-produção e interpretação. O milagre do texto escrito é que a linguagem gravada em signos mortos deve ser reconvertida em sentido vivo pelo intérprete. Logo, o sentido do texto não reside autonomamente em suas linhas como algo congelado, mas "acontece" quando o leitor se engaja com ele.

4 A PRODUTIVIDADE DA DISTÂNCIA TEMPORAL E A FUSÃO DE HORIZONTES

É na tensão entre o texto transmitido e a situação do intérprete atual que a extração do sentido ocorre. Para Gadamer, o iluminismo gerou um preconceito injusto contra os preconceitos (pré-conceitos ou pré-juízos). Na experiência hermenêutica, nossos preconceitos não são barreiras que nos cegam, mas os próprios pontos de partida ontológicos, os horizontes a partir dos quais conseguimos olhar para o texto. Estar imerso na tradição e carregar a carga do nosso próprio tempo é a condição fundamental que torna a compreensão possível.

A distância temporal entre o texto e o leitor moderno não é um abismo a ser superado metodologicamente através de um "salto" para o passado, mas um espaço produtivo e positivo para a compreensão. É a distância de tempo que permite filtrar os preconceitos cegos e fazer emergir os verdadeiros preconceitos, revelando o sentido da obra sob novas luzes que os contemporâneos do autor sequer poderiam vislumbrar. O sentido se extrai através do que Gadamer designa como "fusão de horizontes" (Horizontverschmelzung).

O intérprete possui o seu próprio horizonte de compreensão, e o texto traz consigo o seu horizonte histórico. O ato de compreender não é abandonar o próprio horizonte para se "perder" no do texto — o que seria uma ficção ingênua e alienante —, mas sim permitir que esses horizontes se fundam. A verdadeira compreensão "é sempre o processo de fusão desses horizontes presumivelmente dados por si mesmos". Portanto, o sentido autêntico de um texto nasce do diálogo, da interação entre o que a tradição nos fala e as perguntas que nós, a partir do nosso presente, formulamos a ela.

5 A APLICAÇÃO (APPLICATIO) COMO MOMENTO INTERNO DA COMPREENSÃO

Para consolidar o argumento de que o sentido pertence mais ao processo de extração do que ao ente estático, Gadamer reabilita a tradição da hermenêutica jurídica e teológica, muitas vezes desprezadas pela filologia secular moderna. Na tradição antiga, a hermenêutica dividia-se em compreensão (subtilitas intelligendi), interpretação (subtilitas explicandi) e aplicação (subtilitas applicandi). O romantismo unificou compreensão e interpretação, mas desterrou a aplicação.

Gadamer dá um passo fundamental ao recolocar a aplicação como um momento integrante, essencial e incindível do próprio ato de compreender. O trabalho do jurista é exemplar nesse aspecto. O juiz não tenta compreender uma lei apenas como um documento histórico morto; ele compreende a lei na medida em que a aplica a um caso concreto do presente. A lei só ganha o seu verdadeiro e pleno "sentido jurídico" no ato da sentença que a atualiza. Do mesmo modo, o teólogo ou o pregador só compreende verdadeiramente a Sagrada Escritura na medida em que a mensagem de salvação fala à situação atual de sua congregação.

Essa premissa estende-se a toda a hermenêutica das ciências do espírito. Compreender um texto histórico ou literário significa necessariamente aplicá-lo a nós mesmos, mediando o passado com a nossa situação presente. Se o texto fosse depositário solitário de seu próprio sentido, sem necessidade de aplicação, o trabalho interpretativo seria mero diletantismo. É, portanto, no processo contínuo de interpretação, atualização e aplicação que o texto pulsa e adquire o seu estatuto ontológico de verdade. A hermenêutica é regida por uma "consciência da história efeitual" (Wirkungsgeschichtliches Bewußtsein), o reconhecimento de que nós e o texto estamos enredados no mesmo fluxo contínuo de sentido e tradição.

6 A LINGUAGEM COMO O "MEDIUM" DA EXPERIÊNCIA HERMENÊUTICA

Todo esse processo dinâmico de fusão e de extração tem um espaço onde ocorre: a linguagem. A compreensão está sempre ligada intrinsecamente à linguagem. Não compreendemos um texto primeiro, abstratamente, para somente depois o "vestirmos" com palavras. O vir-à-fala da coisa no próprio ato da interpretação é o meio pelo qual o acordo hermenêutico se realiza, semelhante à dinâmica de uma conversação viva entre duas pessoas.

Com base nisso, Gadamer formula uma das teses mais célebres de toda a sua obra: "O ser que pode ser compreendido é linguagem". É pela linguagem que possuímos um mundo. O texto transmitido é transformado de meros signos mortos para um interlocutor vivo mediante o processo dialético de pergunta e resposta. No interior deste círculo dialético, o texto só nos diz algo se nós lhe fazemos perguntas a partir de nosso tempo, e nós só fazemos perguntas porque fomos previamente interpelados pelo texto. Dessa rica dinâmica linguística e dialética surge o sentido. O sentido não jaz sob os signos de tinta no papel aguardando um arqueólogo metódico; ele é o "acontecimento" (Geschehen) vital gerado pela articulação conversacional entre intérprete e obra.

7 CONCLUSÃO

Em Verdade e Método, Hans-Georg Gadamer transformou a autocompreensão das ciências do espírito/humanidades. Ao demonstrar que a hermenêutica não é um método científico de validação, mas a estrutura ontológica fundamental de nossa experiência com o mundo, da nossa pré-sença, ele nos convida a abandonar o ideal quimérico e estéril do objetivismo puro. O autor consolida uma verdadeira revolução filosófica ao estabelecer que a tradição histórica e as grandes obras de arte exigem de nós uma abertura radical.

Respondendo diretamente ao nosso escopo investigativo, o sentido hermenêutico, para Gadamer, configura-se inquestionavelmente como um horizonte processual. O sentido não habita passivamente os limites sintáticos do próprio texto original, como quem guarda um segredo morto; ele existe primordialmente no processo vibrante, histórico e temporal da sua extração e aplicação. Como as regras de uma partitura que clamam pela orquestra para virar música, a literatura clama pelo leitor para virar sentido. Nessa grandiosa coreografia de fusão de horizontes entre passado e presente, mediada irremediavelmente pela linguagem, percebemos que extrair o sentido de uma obra não é outra coisa senão compreender um pouco mais sobre nós mesmos.

Notas

1
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 14.
2
Ibidem, p. 16.
3
Ibidem, p. 108.
4
Ibidem, p. 256.
5
Ibidem, p. 296-297.
6
Ibidem, p. 311.
7
Ibidem, p. 313.
8
Ibidem, p. 330-333.
9
Ibidem, p. 478.

Referências

  • GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método: Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 3. ed. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1999.
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