Book Review
Drd. Cídio Lopes de Almeida
Resumo
Esta obra de Mário Ferreira dos Santos examina a simbólica como uma linguagem universal que conecta o mundo sensível às realidades metafísicas e espirituais. O autor investiga como os símbolos e números funcionam através da participação, permitindo que o ser finito se relacione com o Absoluto ou a Divindade. Através de uma análise dialética e analógica, o texto explora o significado profundo de elementos como a tríade, o sol e a árvore em diversas tradições religiosas. A fundamentação teórica baseia-se na filosofia escolástica e pitagórica para demonstrar que o universo possui uma estrutura ordenada e hierárquica. Por fim, o tratado apresenta o símbolo como uma ferramenta essencial para a compreensão da existência e para o caminho místico da humanidade.Anotações sobre a obra
A obra Tratado de Simbólica, de Mário Ferreira dos Santos, estabelece as fundações de uma disciplina filosófica autônoma denominada Simbólica, a qual se dedica ao estudo da gênese, do desenvolvimento, da vida e da morte dos símbolos. O autor propõe uma distinção fundamental entre o sinal e o símbolo, esclarecendo que o sinal pertence ao gênero e pode ser meramente convencional ou arbitrário, operando por uma correlação extrínseca. O símbolo, por sua vez, diferencia-se por possuir uma analogia de atribuição intrínseca com o objeto simbolizado, o que implica uma participação real e uma semelhança motivada entre o significante e o significado. Para o filósofo, o símbolo não apenas aponta indicativamente, mas exerce uma função analógica e explicadora que permite captar a realidade em sua profundidade, algo que o conceito abstrato muitas vezes falha em realizar plenamente.
A análise da gênese do símbolo é fundamentada na biologia e na psicologia, utilizando os conceitos de adaptação, acomodação e assimilação. O autor explica que o conhecimento humano opera através de esquemas que buscam se acomodar à realidade objetiva, mas quando a assimilação supera a acomodação, surge o símbolo como uma forma de captar o objeto através de uma analogia subjetiva e afetiva. Esse processo é visível no sonho e na arte, onde a imaginação criadora preenche as lacunas da compreensão lógica através de construções simbólicas que, embora possam parecer ilógicas à razão formal, possuem uma coerência interna baseada na afetividade e nos esquemas primitivos da psique.
O cerne filosófico do tratado reside na dialética da participação, onde o autor retoma e aprofunda o pensamento platônico e a escolástica para demonstrar que o símbolo participa da realidade do simbolizado. Diferente da lógica formal que opera por identidades estáticas e exclusões, a lógica simbólica opera por graus de intensidade e participação, permitindo compreender como os seres finitos participam das perfeições do Ser Supremo. A obra explora a tensão entre a transcendência e a imanência, argumentando que o símbolo é o meio pelo qual o homem pode ascender do conhecimento sensível para o conhecimento inteligível e metafísico, constituindo uma via de reintegração com o divino.
No campo da psicologia profunda, Mário Ferreira dos Santos dialoga com as teorias de Freud e Jung, criticando o reducionismo biológico e sexual do primeiro em favor da visão mais abrangente do segundo. Ele defende que a libido deve ser entendida como uma energia psíquica geral e não apenas sexual, e que os símbolos religiosos e oníricos manifestam arquétipos universais que residem no inconsciente coletivo. O autor argumenta que a crise do homem moderno decorre justamente da perda da capacidade simbólica e da desconexão com essas raízes profundas, o que leva a um empobrecimento espiritual e à neurose.
A segunda parte da obra dedica-se a uma extensa análise da simbólica dos números, resgatando a tradição pitagórica que vê o número não como mera quantidade, mas como qualidade e essência estruturante da realidade. O autor percorre a escala numérica descrevendo o Um como a unidade absoluta e divina, o Dois como a díada geradora da oposição e da matéria, e o Três como o termo de relação e equilíbrio que permite o retorno à unidade. A análise prossegue pelo Quaternário como símbolo da materialização e do mundo físico, o Quinário como representação da vida e do homem, o Senário como equilíbrio e harmonia, o Septenário como evolução e transição, o Octonário como ressurreição e novo ciclo, culminando no Decenário como a unidade sintética e totalizadora da ordem cósmica.
Por fim, o tratado examina a simbólica aplicada às religiões e aos elementos naturais, interpretando fenômenos como o mana, o tabu e o totemismo não como superstições primitivas, mas como intuições válidas de uma presença de poder participado nas coisas. O autor analisa o simbolismo do fogo como agente transformador e purificador, da água como fonte de vida e regeneração, e da terra e da árvore como arquétipos maternos e de crescimento. Símbolos centrais como o sol, a luz, a serpente e a cruz são dissecados para revelar como expressam verdades metafísicas universais sobre a origem, a queda e a salvação do homem, demonstrando que a via simbólica é um instrumento indispensável para a filosofia concreta e para a compreensão integral da existência humana.
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