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Pretexto e Vazio no Zap do Tínder do Exército de Lula: a linguagem sem alteridade - Dr. Cídio Lopes de Almeida
Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida

Pre-texto e Vazio no Zap do Tínder do Exército de Lula: a linguagem sem alteridade

Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida

Quando a comunicação perde o espaço intersubjetivo e a ancoragem no contexto, o enunciado deixa de ter a gramática viva que o sustentava e se reduz a pretexto, um recurso instrumentalizado e desligado de qualquer intenção relacional. Em Wittgenstein, a linguagem opera por jogos de linguagem (Sprachspiele), que só fazem sentido quando imersos em uma forma de vida compartilhada. Fora desse tecido prático e de suas regras tácitas de uso, a palavra deixa de ser um lance legítimo de interação e se torna engrenagem que gira no vazio. Sem o chão contextual que delimita o campo de atuação, a iteração perde a dimensão viva e negociada do jogo e se converte em repetição defensiva ou em álibi autorreferencial. Fala-se, então, para dispor de um pretexto prévio, e o outro, que deveria ser interlocutor, passa a servir de plateia.

A erosão do sentido ganha densidade na hermenêutica de Paul Ricoeur e no neopragmatismo de Richard Rorty. Para Ricoeur, todo discurso é primariamente evento situacional, o ato vivo de alguém que diz algo a alguém sobre algo. Perdido o horizonte situacional, instala-se uma distanciação alienante, e a fala já não funda um mundo comum, mumificando-se em pretexto interpretativo. Rorty trata as palavras como ferramentas contingentes, criadas para ampliar a solidariedade e manter fluida a conversa humana, e abandona a pretensão de que elas espelhem a realidade. Desnudada do espaço livre de troca interpessoal, a linguagem renuncia à vocação pragmática e mediadora e passa a operar como manobra estratégica. Sem o espaço e o risco inerentes ao jogo comunicativo, todo discurso degenera em autoafirmação e recusa da alteridade.

O grupo de zap do pretenso “Exército de Lula” e seus desdobramentos caricatos, como o “Tinder do Exército de Lula”, exibem a conversão do engajamento político em performance estetizada. A espetacularização vence a práxis, e a militância se reduz a fetiche identitário e a mercado de consumo afetivo. A dinâmica do próprio ambiente favorece esse desfecho, pois onde a adesão se mede por reação, repetição e palavra de ordem, o enunciado que confirma circula bem e o que contesta encontra pouco abrigo. Sob a ótica freudiana da psicologia das massas, tem-se uma regressão libidinal em que o sujeito aliena o seu Ideal do Eu na imagem do líder ou do grupo, refugia-se no narcisismo das pequenas diferenças e troca a consciência crítica pelo pertencimento gregário. Em termos lacanianos, a ação política fica confinada ao registro do Imaginário, a lógica especular do estádio do espelho, em que o outro é despido de alteridade e rebaixado a instrumento de validação egóica e de gozo narcísico. Recusa-se a mediação do Simbólico, isto é, a dialética e a disputa de projetos, assim como o enfrentamento com o Real da estrutura material e de classe. Essa “tinderização” da militância transforma a linguagem libertadora em vazio comunicativo e em pretexto de sociabilidade autoafirmativa. Opera-se assim uma traição à discursividade de esquerda, historicamente calcada na práxis coletiva, na alteridade e no rigor da transformação social, e a derrocada se consuma por dentro, no espetáculo da autointoxicação ideológica.

A dissolução do espaço intersubjetivo e a perda da ancoragem contextual, que Wittgenstein, Ricoeur e Rorty permitem descrever, encontram sua manifestação mais sintomática na estetização narcísica da militância contemporânea. Ao abdicar do jogo de linguagem vivo e da mediação do Simbólico, o “Exército de Lula” e seus desdobramentos afetivo-consumistas mostram como a comunicação sem alteridade converte a ação política em pretexto autorreferencial. Quando o discurso abandona a construção de um mundo comum e se recusa a confrontar o Real da estrutura social, a linguagem emancipatória se esvazia por dentro, a práxis cede lugar à performance egóica e o engajamento se degrada no mesmo vazio comunicativo que pretendia combater.

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