ALMEIDA, Cídio Lopes de. O Segredo Maçônico Revelado. [Ensaio]. 2026.

O Segredo Maçônico Revelado

Drd. Cídio Lopes de Almeida

Resumo

Este ensaio propõe uma reflexão crítica sobre o conceito de segredo na Maçonaria, distinguindo-o do "Mistério" inefável. Ispirado indiretamenteo na fenomenologia de Rudolf Otto e a história da antimaçonaria, argumenta que a verdadeira profanação não reside no debate acadêmico sobre os temas da maçonaria, mas no esvaziamento do sentido existencial que uma pobreza hermenêutica tende operar em fixar de modo equívocado o mistério como um segredo e na adesão a discursos que negam a complexidade da realidade e os fundamentos democráticos da instituição.

Proposição e Crítica

O título desta reflexão em torno de revelar os segredos da maçonaria assume um caráter provocativo para, de imediato, subverter a lógica do espetáculo e propor um exame crítico sobre o segredo na Maçonaria. Longe de alimentar fofocas ou revelações míticas, este texto busca sistematizar as percepções colhidas em diálogos acadêmicos e interações em meu site, oferecendo um novo ângulo sobre o tema. Argumento que profanar não consiste no debate articulado e honesto fundamentado pelas ciências humanas, mas sim na incapacidade de reconhecer a complexidade da realidade. A verdadeira profanação ocorre quando reduzimos o outro a clichês ideológicos binários e nos furtamos à humildade de admitir o desconhecimento. É preciso substituir a reprodução de fórmulas prontas pela postura ética da escuta, evitando que o senso comum seja confundido com o saber autêntico sobre o que não se conhece.

Ao persistir nesta leitura, começamos com o tema da preocupação recorrente entre os próprios adeptos dos fenômenos maçônicos que é a exposição de seus segredos, em especial por ocasião de nosso percurso de Maçonaria Informação Geral. Contudo, desde o século XIX, sob a influência das obras de Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand Pagès (1854 – 1907), conhecido pelo pseudônimo Léo Taxil, observa-se uma exploração comercial exaustiva desse tema em chave do que José Antonio Ferrer Benimeli (1934) retomou como sendo parte de uma fortuna literária da antimaçonaria. Se tais segredos fossem redutíveis à mera informação, três séculos de publicismo, a considerar a fundação da Grande Loja Unida da Inglaterra, já os teriam esgotado. A tese que sustento, em diálogo com a fenomenologia de Rudolf Otto (1869 – 1937), é que a Maçonaria não se estrutura sobre o segredo vulgar, mas sobre o Mistério, o mysterium tremendum, algo que jamais é revelado por remeter à vastidão inefável do universo. Diferente do segredo, o mistério não é nomeável, conceituável ou passível de mercadorização, pois escapa às categorias da razão pura. Trata-se da mesma busca presente nas tradições místicas universais pela essência da vida. Todavia, embora o mistério seja inalcançável, a ideia que o sustenta ou que nos leva até a contemplação dessa dimensão que se mostra a nós pode ser profanada quando reduzida ao rasteiro ou interditada por narrativas dispersivas, fenômeno que passarei a explicar.

A Indústria da Antimaçonaria

O fetiche pelo segredo e o desserviço explorado comercialmente por Léo Taxil consolidaram uma bibliografia pautada na invenção de ritos e conspirações. Na obra Os Mistérios da Franco-Maçonaria (1886) o autor inventa ritos e conspirações políticas enquanto em A Franco-Maçonaria Desvendada (1887) ele propõe relacionar os graus superiores a aspectos diabólicos, alimentando o mito de que segredos terríveis estariam reservados apenas aos altos graus. O tema da guerra espiritual e secreta entre a Sé Romana e as Lojas é o foco de O Vaticano e os Franco-Maçons (1886), ao passo que em O Diabo do Século XIX (1892), sob o pseudônimo Dr. Bataille, o autor explora a fantasia de rituais de invocação de demônios e a existência de uma elite interna que ele denominou Palladismo. A narrativa ficcional prossegue em Memórias de uma ex-Palladista (1895) com a personagem Diana Vaughan apresentada como uma sacerdotisa luciferiana convertida. Esse rastro histórico de desinformação no circuito da antimaçonaria estende-se a obras como a do Padre A. Feitosa intitulada O Comunismo e a Maçonaria (1948), que exemplifica a continuidade dessas produções ao arrepio do que seja os fenômenos maçônicos e devotadas a construir uma ideia de atividade perigosa e outros adjetivos deletérios para as almas.

A Perspectiva Órfica e o Mistério

Em vez de persistirmos na busca exaustiva por um segredo supostamente oculto, devemos inverter a questão e voltar nossos questionamentos para a maneira como nós, seres humanos, nos relacionamos com a própria ideia de mistério. Essa mudança de perspectiva encontra amparo na obra O Véu de Ísis de Pierre Hadot (1922-2010), na qual o autor analisa a sentença de Heráclito de Éfeso sobre a natureza que ama esconder-se. Hadot identifica na cultura ocidental duas posturas diante desse ocultamento, sendo que a abordagem órfica se destaca por não pretender a violação da natureza por meio da força ou da técnica, mas sim o acesso aos seus segredos pela via da contemplação, da poesia e da iniciação estética. Diferente da sagacidade prometéica que busca o domínio, a atitude órfica respeita o sagrado e reconhece que o mistério da vida não pode ser capturado em conceitos ou fórmulas comerciais. É fundamental pontuar que essa análise de Hadot é estritamente histórica e filosófica, distanciando-se de interpretações teosofistas contemporâneas ao demonstrar como a figura de Ísis permanece no horizonte de sentido do Ocidente como uma representação da mãe natureza desde a antiguidade, reaparecendo com força simbólica nos momentos históricos da Revolução Francesa.

Outra vertente fundamental para a investigação do mistério reside na literatura mística ocidental, especialmente na tradição cristã representada por João da Cruz (1542-1591). O autor constitui uma referência essencial para compreendermos o tema do mistério sob a ótica do processo mistagógico, que se define como uma pedagogia do mistério voltada à condução do indivíduo para a contemplação do inefável. Essa perspectiva reforça que o mistério não é algo a ser desvendado como um enigma lógico, mas uma realidade a ser vivenciada e integrada à experiência humana. Encontramos essa mesma fundamentação no ritual litúrgico da Igreja Católica Apostólica Romana, especificamente no momento simbólico da consagração em que o celebrante, ao realizar a transubstanciação cerimonial do pão no corpo de Cristo, proclama a expressão "eis o mistério da fé". Esse registro litúrgico confirma que o mistério não se refere a uma ocultação de informações, mas à presença de uma realidade sagrada que transcende a apreensão intelectual e se manifesta no âmbito do rito.

Profanação e Perda de Sentido

Considerando que o segredo se configura essencialmente como mistério e se manifesta de forma pervasiva na existência humana e em variados eventos socioculturais, resta-nos perguntar sobre as possibilidades de sua profanação. É possível profanar o mistério quando se estabelecem estruturas que impedem deliberadamente o cultivo dessa dimensão que circunda a experiência coletiva, resultando no esvaziamento do sentido da vida. Essa perda de propósito constitui o cerne da profanação contemporânea, frequentemente impulsionada por uma cultura capitalista que prioriza a mercadorização em detrimento da exploração de aspectos existenciais. Sem propor o comunismo como alternativa salvífica, mas focando na análise do modelo socioeconômico imediato, observa-se que a amplificação da perda de sentido aliena o indivíduo de sua própria subjetividade. Profana-se o mistério, portanto, ao construir realidades que obstruem a capacidade humana de conceber qualquer forma de transcendência, reduzindo a complexidade do ser ao imediatismo material e impedindo a conexão com o inefável que fundamenta a tradição mística e a prática ritual.

Em definitivo, a maçonaria não será profanada por ter seus rituais e conteúdos filosóficos debatidos de modo acadêmico ou na esfera pública, uma vez que a dinâmica da iniciação maçônica não se esvazia quando o Rito Escocês Antigo e Aceito se torna objeto de pesquisa científica. O segredo e o silêncio possuem natureza pedagógica ou, mais precisamente, mistagógica, pois a pedagogia do mistério pertence a uma ordem epistêmica distinta dos currículos escolares tradicionais. Não se pode esquecer que o rito é denominado simbólico e essa fundamentação é retomada explicitamente no grau de mestre ao tratar da morte de Hiram Abif, o mestre construtor que compõe a lenda iniciática do sistema ritualístico maçônico. Portanto, o rigoroso exercício do silêncio não pertence à ordem da ocultação de informações secretas em público, mas sim a um movimento de silenciar o próprio ego para retornar o olhar ao sujeito e promover a iniciação a partir de si mesmo. O não falar deve ser compreendido como uma técnica de introspecção para a percepção do eu, de modo que as discussões sobre segredos e juramentos se revelam questões de hermenêutica da iniciação. Essa metodologia utiliza o símbolo e o rito para criar as condições estéticas necessárias a um processo lento de autoconhecimento e de volta sobre si. Ademais, não debater na esfera pública o tema do segredo e os demais componentes da Ordem alimenta a eterna sanha em explorar o assunto para fins escusos.

A Verdadeira Profanação: Ética e Política

Existem várias formas de explicar como a interdição de uma percepção sobre uma transcendência ou de um sentido para a vida humana é um ato de profanar. Contudo, não será através de uma reflexão pública sobre aspectos administrativos e das dinâmicas ritualística e filosóficas do que seja as práticas da Maçonaria. Por exemplo, quando uma pessoa filiada a essa sociabilidade, na qual estão estampados de variados modos certos princípios filosóficos, os desconhece e adota práticas em sentido contrário, exerce um ato mais profanador do que um debate solene e sereno sobre os temas de uma filosofia neoplatônica presente no ritual. Compreender que senhas e palavras-chave são um método simbólico, e não um texto de prosa denotativa, mas conotativa, de uma poética criativa desse trampolim para o transcendente, parece-me uma atitude de não profanação. Ademais, através de leituras variadas, dialogadas com outras literaturas além das produzidas apenas por adeptos, auxilia-se a compreender de modo alargado o que é a dinâmica exclusiva da ritualística simbólica, capaz de construir vínculos comunitários e realmente performar uma iniciação. Discorrer publicamente, sobretudo para contrapor a antimaçonaria, não é transgredir essa dimensão particular da sociabilidade, tranquilamente acomodada dentro do Estado Democrático de Direito.

É válido insistir que, embora existam múltiplas formas de compreender a interdição da transcendência como um ato de profanação, tal violação não decorre da reflexão acadêmica objetiva sobre os fenômenos maçônicos. É plausível sustentar hipoteticamente que um membro dessa sociabilidade que desconhece que há estreita relação existencial dessa sociabilidade com os princípios democráticos que fundamentam o Estado de Direito, e presentes no texto do Rito Escocês Antigo e Aceito, comete uma profanação real ao adotar condutas contraditórias, como a adesão a discursos protofascistas que defendem rupturas institucionais, a exemplo dos eventos de oito de janeiro de dois mil e vinte e três. Tal postura é uma profanação dos fundamentos de uma instituição que, historicamente, desde o século XIX, vincula-se à defesa da democracia e do Estado Laico. A atitude de não profanação reside justamente em compreender que senhas e palavras de passe operam como métodos simbólicos e poéticos, funcionando não como prosa denotativa [ciência], mas como uma linguagem conotativa [poética] que serve de trampolim para o transcendente. Ademais, o exercício de leituras variadas em diálogo com literaturas externas aos círculos dos adeptos auxilia na compreensão alargada da dinâmica ritualística, capaz de construir vínculos comunitários e performar uma iniciação autêntica. Discorrer publicamente para contrapor os clichês da antimaçonaria não significa transgredir a dimensão particular dessa sociabilidade, a qual se encontra plenamente acomodada dentro das garantias do Estado Democrático de Direito. Vale citar que a:

"Ignorância é a mãe de todos os vícios e seu princípio é nada saber, saber mal o que se sabe e saber coisas outras além do que se deve saber."
AMF3 Escola de Filosofia | Investigação em Filosofia e Ciências das Religiões

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