RESENHA
EPIFÂNIO, Renato. O que é a lusofonia? [vídeo]. Publicado por Nova Águia, 12 abr. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cpSnRc8WY4s. Acesso em: 9 jun. 2025.
Cídio Lopes de Almeida
[sem revisão por pares]
Resumo
A transcrição do vídeo apresenta uma conferência aprofundada ministrada pelo Prof. Dr. Renato Epifânio sobre o conceito de lusofonia — compreendida como uma comunidade cultural, linguística e filosófica formada em torno da língua portuguesa e de seu legado. A exposição aborda a lusofonia sob múltiplas perspectivas: filosófica, histórica, cultural, linguística e geopolítica. Dr. Renato, filósofo, traça as raízes da lusofonia por meio de figuras literárias e filosóficas portuguesas, do impacto global da língua portuguesa e de como a lusofonia atual ultrapassa o âmbito linguístico, incorporando identidades culturais que conectam populações diversas nos continentes europeu, africano, latino-americano e asiático.
A conferência
A conferência inicia-se com a formação acadêmica do Dr. Renato Epifânio por ele mesmo, e que se dá em filosofia, destacando a relação essencial entre linguagem e pensamento, com ênfase em Martin Heidegger e no filósofo português José Marinho. Em seguida, a exposição valoriza a influência de Agostinho da Silva, figura central na constituição da identidade lusófona contemporânea, cujos trabalhos se consolidaram especialmente durante sua longa estadia no Brasil. A visão de Agostinho sobre a lusofonia é panorâmica e não eurocêntrica, realçando a partilha histórica e cultural entre continentes e promovendo o diálogo intercultural e inter-religioso — sua ideia de uma “pátria ecumênica” pela via da língua portuguesa.
Dr. Renato Epifânio enfatiza que a lusofonia é uma realidade dinâmica e vivida, e não um conceito meramente político, como indicam siglas como CPLP ou PALOP. Defende também a valorização das diversidades linguísticas — incluindo crioulos — e dos traços culturais persistentes em locais como Goa, Macau e Malaca, onde a língua portuguesa já não é predominante, mas a herança cultural permanece viva.
A conferência também aborda desafios e oportunidades contemporâneos: o crescimento demográfico dos países africanos lusófonos, o papel do Brasil como potência demográfica e cultural, o afastamento relativo de Portugal em função de sua integração europeia e a relevância geopolítica da língua portuguesa no cenário global — inclusive nas relações comerciais com a China.
Conclui-se que a lusofonia representa uma comunidade global viva e em evolução, portadora de potencial para a paz intercultural, a cooperação e a influência civilizatória, ao mesmo tempo que enfrenta fragmentações e desafios contemporâneos. O evento termina com um debate aberto, no qual se discutem aspectos identitários, comunitários e o futuro da influência cultural e linguística portuguesa no mundo.
Destaques
A lusofonia é uma comunidade transnacional moldada por história, cultura e língua comuns entre Europa, África, América Latina e Ásia.
A filosofia portuguesa revela laços profundos entre linguagem e pensamento.
Figuras como José Marinho e Agostinho da Silva contribuíram decisivamente à reflexão filosófica e cultural sobre a lusofonia.
A lusofonia ultrapassa a língua: abarca identidades culturais, crioulas e manifestações simbólicas dos antigos territórios coloniais.
Promove diálogo intercultural, consciência ecológica e convivência pacífica.
O crescimento demográfico da África lusófona e a centralidade do Brasil asseguram a vitalidade da lusofonia no futuro.
Mais que bloco político, a lusofonia é um horizonte cultural e civilizacional aberto à boa vontade entre os povos.
Principais ideias
Linguagem como morada do ser: Inspirando-se em Heidegger, Dr. Renato defende que a linguagem não é mero instrumento, mas o espaço originário onde se desdobra o pensamento. A lusofonia, assim, deve ser compreendida como realidade cultural e ontológica, não apenas política.
Nexo entre filosofia, literatura e poesia: José Marinho, ao analisar Teixeira de Pascoais, evidencia que, na tradição lusófona, filosofia e poesia se nutrem mutuamente, enriquecendo a expressão da identidade e do pensamento culturais.
Agostinho da Silva e a lusofonia não eurocêntrica: Sua trajetória Portugal-Brasil e sua proposta de uma “pátria ecumênica” abrem a lusofonia para um modelo pluralista e dialógico, que supera as limitações do eurocentrismo.
Lusofonia como paradigma de harmonia cultural e ecológica: A proposta agostiniana inclui justiça social, liberdade política e consciência ecológica — antecipando temas urgentes da contemporaneidade.
Transformações geopolíticas e demográficas: O eixo lusófono desloca-se ao Sul, com o crescimento da África lusófona e o protagonismo do Brasil. A crescente atenção da China ao português como língua estratégica ilustra o valor geopolítico da lusofonia.
Identidade e comunidade para além de fronteiras: A comunidade lusófona inclui diásporas, crioulos e identidades híbridas, compondo uma realidade viva fundada mais na história compartilhada que no nacionalismo.
Futuro da lusofonia está no diálogo: O trabalho de entidades como o MIL (Movimento Internacional Lusófono) e a CPLP revela que a lusofonia pode ser força de paz, educação e ação civil, configurando um modelo de “poder brando” (soft power).
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