O GROTESCO NORMALIZADO
Cientista da Religião e Filósofo
O que se propõe aqui não é a defesa do outro tornado monstro na narrativa corrente. A questão é outra, trata-se do grotesco que veste roupagem religiosa e que não é fenômeno externo à nossa formação cultural ocidental. É gestado dentro dela, e é precisamente por isso que ele é mais perigoso do que parece, pois tende a passar desapercebido. Esta resenha oferece pistas inicias, uma chave para pensar e desmontar uma bomba-relógio que segue sendo construída, peça por peça, dentro das próprias tradições cristãs que nos constituem enquanto ocidente. A ideia é avisar a todos que o monstruoso não está lá fora, mas aqui dentro.
Há um mecanismo perverso que rege a circulação de falas abjectas no espaço público contemporâneo. Elas nunca chegam nuas ou diretas como sendo o monstro. Chegam mediadas, embrulhadas num comentário que diz "é isso que ele afirmou", como se a distância sintática entre o narrador e o enunciado fosse suficiente para absolvê-lo. A fala grotesca é colocada em circulação, e quem a veicula constrói para si o papel de mero repórter do absurdo. A lógica é simples e devastadora. O horror circula. O narrador fica de fora. E a ideia, que seria inaceitável dita em primeira pessoa, começa a ocupar terreno, a ser respirada, a ser discutida, a entrar nas molduras interpretativas das massas acríticas das redes sociais como se fosse um dado do mundo a ser avaliado, e não uma proposta política a ser rejeitada. Esse dispositivo retórico é uma das mais eficazes tecnologias de normalização do grotesco que o tempo presente produziu. Van Dijk, ao analisar as estruturas do discurso manipulador, demonstrou que a manipulação ideológica opera precisamente através do controle das representações mentais coletivas, impondo modelos cognitivos que tornam o inaceitável progressivamente palatável.[1]
O grotesco não se anuncia como grotesco. Essa é sua característica estrutural mais importante e mais perigosa. Narrativas que justificam a violência bárbara contra o outro operam sempre por meio de uma inversão prévia. É o outro quem é bárbaro, é o outro quem merece, é o outro que não compartilha dos valores que nos tornam humanos e, portanto, dignos de proteção. A desumanização precede o massacre, não como acidente, mas como condição de possibilidade. Quando o discurso público de determinado ator político ou religioso começa a naturalizar imagens do inimigo como sub-humano, como ameaça ontológica, como entidade que nega por sua própria existência a ordem que nos é cara, ele está preparando o terreno para que o extermínio posterior seja recebido não com horror, mas com alívio. O analista crítico do discurso identificou com precisão que a manipulação "envolve não apenas poder, mas especificamente abuso de poder, ou seja, dominação" e que esse abuso opera sistematicamente sobre a cognição social, moldando atitudes de grupos inteiros em relação ao outro representado como ameaça.[2]
O que muda em nosso tempo é a velocidade com que esse percurso se realiza e a amplitude dos canais pelos quais ele se propaga. As redes sociais transformaram a arquitetura da propagação ideológica de maneira que ainda não compreendemos em sua totalidade. O discurso racista, que antes precisava de jornais, rádios, igrejas ou estruturas partidárias para se difundir em escala, circula hoje em milissegundos, reproduzido por algoritmos que favorecem o engajamento emocional. O horror engaja, o ódio engaja, o medo engaja. O que os algoritmos não fazem, e desconfiamos que de propósito segundo interesses das grandes empresas de tecnologias, é distinguir entre o engajamento que nasce da indignação ética, que não dá retorno financeiro, e o engajamento que nasce da identificação entusiasta, e faz alguns ganharem dinheiro com a miséria do mundo. O resultado é que narrativas que justificam a guerra, que pintam o palestino, o muçulmano, o árabe, como figura de ameaça irracional e merecedora de castigo coletivo, circulam com uma velocidade quase magica, escamoteando sempre dinâmicas de interesses perversos, e com um alcance gigantesco, enquanto denúncias dessas mesmas narrativas mingua no anonimato. A assimetria está na velocidade como que é distribuído o discurso de ódio, que faz parecer que apenas os receptores sejam os responsáveis por esse sucesso narrativo. Massas acríticas, formadas em ambientes de desinformação e de coesão identitária, é a parte necessária para que se construa câmaras de eco onde o grotesco se autoconfiram e se amplia, agora, de modo orgânico assistido, pois é sempre um mito pensar que nas redes existe um lugar de liberdade.
É nesse cenário que o sionismo cristão emerge como semiosfera particularmente relevante, uma esfera de produção, circulação e legitimação de signos que conferem sentido religioso à violência política. Maria das Dores Campos Machado e Brenda Carranza, em artigo publicado na revista Nueva Sociedad em 2025, definem o fenômeno como "um fenômeno complexo fomentado por redes transnacionais, por la agenda geopolítica de Estados Unidos para Oriente Medio y por la llamada 'diplomacia de la fe', que sucesivos gobiernos israelíes vienen implementando en América Latina".[3] Dentro dessa semiosfera, o bombardeio de Gaza não é crime de guerra. É cumprimento profético e a expansão de assentamentos não é colonialismo, mas é restauração da terra prometida. O sofrimento palestino não é consequência de uma política estatal de ocupação e eliminação. É tribulação necessária no caminho do fim dos tempos. O sionismo cristão não produz apenas simpatia por Israel. Produz um sistema fechado de interpretação que torna o extermínio não apenas compreensível, mas desejável. A pesquisa de Machado e Carranza documenta como esse processo se consolidou na América Latina por meio de viagens financiadas à Terra Santa, de materiais bibliográficos distribuídos por embaixadas e de redes de pastores com laços orgânicos com o governo israelense, constituindo o que as autoras descrevem como uma "diplomacia da fé" com estrutura e financiamento externos definidos.[4]
O fenômeno tem raízes históricas no dispensacionalismo do século XIX, mas sua forma contemporânea é inseparável da ascensão política do evangelicalismo norte-americano. O geopolítico Frédéric Encel, no artigo publicado na revista Hérodote em 2005, define o sionismo cristão como uma vontade "não de se instalar em Israel à maneira do sionismo, mas de ajudar e encorajar os judeus a fazê-lo", articulada em torno de interpretações escatológicas que atribuem ao povo judeu um papel singular no fim dos tempos.[5] Encel documenta ainda a dimensão financeira concreta dessa articulação: entre 1994 e 2002, a Fraternidade Internacional de Cristãos e Judeus, um dos mais poderosos movimentos sionistas cristãos norte-americanos, arrecadou quase 65 milhões de dólares para financiar a imigração judaica para Israel.[6] O que esse dado revela não é apenas devoção religiosa. Revela uma estrutura de mobilização política e financeira que transforma a crença escatológica em instrumento concreto de reconfiguração territorial. A pesquisa francesa sobre os cristãos sionistas nos Estados Unidos, publicada na revista Matériaux pour l'histoire de notre temps, documentou como essa nébula de associações sustenta com fervor as reivindicações da direita israelense, da oposição ao Estado palestino ao apoio ao desenvolvimento de colônias em território ocupado, construindo um consenso religioso transnacional em favor de políticas que o direito internacional qualifica como ilegais.[7]
A dimensão mais grave dessa retórica do absurdo é que ela não estão apenas nos blogueiros sensacionalistas ou naqueles produtores de conteúdo digital em busca de cliques. São analistas de trajetória institucional reconhecida, como Scott Ritter, ex-inspetor de armas das Nações Unidas e oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, escreveu no Consortium News em dezembro de 2024 que "hoje é o maior perigo de guerra nuclear do que em qualquer momento da era nuclear".[8] Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia e assessor de três secretários-gerais das Nações Unidas, declarou em entrevista ao canal de Glenn Diesen, professor da Universidade de Oslo, em março de 2026, que estávamos "provavelmente nos primeiros dias da Terceira Guerra Mundial", colocando como questão central saber se o conflito poderia ser contido.[9] Sachs e John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago e um dos mais respeitados teóricos das Relações Internacionais, debateram em outubro de 2025, no mesmo fórum acadêmico mediado por Diesen, as condições estruturais que tornam o conflito nuclear não apenas possível, mas crescentemente provável na ausência de uma reformulação radical da ordem de segurança global.[10] Que esses nomes estejam falando abertamente sobre o fim possível da civilização não é retórica de conjuntura. É o sinal mais claro de que o grotesco que circula nas redes sociais não é ruído periférico. É a superfície visível de uma lógica destrutiva que encontrou suas condições de realização histórica.
O que está em jogo, portanto, não é uma disputa teológica entre interpretações bíblicas. É a questão de como um sistema de crenças religiosas se torna vetor de políticas que conduzem à guerra. Para o sionista cristão comprometido com a escatologia dispensacionalista, a Terceira Guerra Mundial não é catástrofe a evitar. É profecia a cumprir. A batalha do Armagedom é o evento-horizonte de toda a sua cosmologia. Nesse quadro interpretativo, qualquer esforço diplomático que retarde o conflito final é resistência ao plano divino. Qualquer voz que peça cessar-fogo, que proponha negociação, que questione a legitimidade da ocupação, é posicionada como aliada das forças do mal. A religião está sendo usada para ecoar e amplificar absurdos que, em qualquer outro enquadramento, seriam imediatamente identificados pelo que são, tentativas abjetas de justificar extermínio e ou guerras. E, como fluxo da insanidade, preparação discursiva para um conflito nuclear e tudo de catastrófico oriundo disso. Desumanização sistemática de populações civis é o preâmbulo disso. O grotesco normalizado nas redes sociais, os comentários cuidadosamente distanciados de seus objetos por narradores que apenas relatam o que outros disseram como falsa ideia de objetividade, o sionismo cristão como semiosfera que converte atrocidades em cumprimento profético, a escalada geopolítica que analistas de prestígio descrevem como caminho para a guerra total. Tudo isso compõe um único sistema. Não são fenômenos paralelos, e sim um mesmo processo, a barbarie a galope.
Resta-nos pouco a fazer, não ecoar o monstruoso que vive entre nós.
Notas Bibliográficas
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