O Gênio não usa I.A.: pesquisa científica e a mítica do gênio
Cídio Lopes de Almeida*
A proposta da resenha é partilhar algumas meditações sobre o uso de tecnologia na pesquisa e na vida escolar em geral. Nossa ideia é que a interdição ou a moralização da questão não é a forma adequada de pensar o tema, e que a via da interdição atende mais a interesses conservadores do que ao real efeito de quebra do status quo.
Nunca estivemos sob um duplo ponto de cobrança, afinal, foi você ou foi a I.A.? Vamos recapitular. Nas priscas eras dos anos 1990, sim, lá estávamos na biblioteca central da PUC-MG, no campus Coração Eucarístico, a consultar um armário de fichas bibliográficas. Trabalho de "verdade" tinha que ser feito à mão. Trabalho "digitado" já seria visto com certa desconfiança: afinal, foi você mesmo que fez? O escrito parecia ser um atestado do caminho exigente de formar a si.
Quando escrevo esse texto, ou "digito", lembro dessa tarefa. Primeiro a lápis, em caderno habitual, depois passar a limpo com caneta, numa folha com estrutura própria da Faculdade à época. O velho e bom Word já foi visto com máxima desconfiança, afinal, ele sugeria se a palavra era com z ou com s, ou a acentuação gráfica adequada, trapaças aviltantes e cortantes para os puristas dinossauros. No sistema escolar francês temos o caderno sem pauta, que para nós seria o de desenho, e depois o caderno pautado, que aliás é uma belezura para quem tem o hábito de colecionar cadernos e lapiseiras. Todos os dias os estudantes anotam no caderno sem pauta durante as aulas e, como tarefa de casa, devem passar para esse outro caderno o conteúdo anotado.
Decerto habitam muitos não ditos na mitologia escolar francesa e brasileira. Uma ideia de inteligência paira no ar. Debatemos isso de modo colateral na nossa dissertação de mestrado em Filosofia, em torno do pensamento estético-educacional em Nietzsche, de resto um debate que dialogou com o contexto do Romantismo Alemão, esse movimento filosófico-cultural mais alargado, situado na cultura alemã dos séculos XVIII e XIX. O gênio foi incensado, o gênio era alguém sobre-humano, quase um Prometeu da mitologia a carregar o fogo à frente das massas de humanos. E nesse mix das luzes, os fantasmas eram sempre a não inteligência, os que não pensavam. Nessa vaga ideológica não era difícil chegar à ideia dos que eram o contrário do gênio, os "anões da cultura" nas ideias do famigerado Nietzsche.
Não existe um fluxo lógico e necessário entre essa ideia de gênio e os governos nazi-fascistas da Europa. Contudo, somados mais alguns vetores, não será difícil transitar do ideal de gênio do Romantismo, ou mesmo das suas variações no Iluminismo em geral, para surgir uma ideia maldita, que é a de que há humanos desprezíveis e outros fabulosos, lindos, maravilhosos, "fodas". Soma-se a isso a ideia mítica do gênio, do inteligente "demais da conta, sô", a nossa educação escolástica jesuítica, com sua dinâmica militar-educativa de estudos, a qual tivemos contato no contexto da nossa formação num dado seminário católico nos anos 1990. A disputa para ver quem sabia mais era algo promovido no cotidiano dos seminários jesuíticos, elegendo dia a dia o aluno mais inteligente, com recompensas nos horários de intervalo escolar. Nesse caso, não desejo fazer algum tipo de associação entre o bestial do nazifascismo e a educação em tela, a questão em destaque é apenas um tipo de ideal e ideologia sobre a figura de um "aluno inteligente". A questão por nós desejada é o desmonte dessa fantasia histórica e da sua não realidade concreta, que serve mais para disfarçar as condições materiais que precisam estar na base de uma vida de estudos.
Devemos ser diretos e honestos, não há gênio e toda essa mítica é uma ideologia fajuta. Há condições para se dedicar a uma vida de estudos ou não. Por condições entendemos não só o tempo livre, enquanto outra pessoa cuida de tudo, mas sobretudo as condições afetivas para os estudos. Como somos, enquanto cultura brasileira, especialistas em desigualdade social, é sempre um escárnio desconsiderarmos isso quando pensamos e promovemos uma cultura da pessoa inteligente entre nós, brasileiros.
Ainda recapitulando, segundo o historiador das ideias Rüdiger Safranski, em Romantismo: uma questão alemã, essa vaga cultural foi uma reação ao Iluminismo francês. Ademais, sabemos de outras fontes que os Estados que formam a Alemanha Federal atual chegaram atrasados na industrialização, afinal só conseguiram a unidade política nos anos 1870. Nossas fontes decorrem das leituras sobre o pensamento e a vida de Nietzsche. Conseguimos ter assim uma ideia do sentimento expresso pelo moço do bigode grande, que demonstrou patriotismo fervoroso no contexto do conflito bélico franco-prussiano de 1870-71. Em carta aos amigos Erwin Rohde e Carl von Gersdorff, além de desejar servir à pátria alemã, exalta a disciplina prussiana. Via no exército de Guilherme I algo mais que o militar, algo capaz de superar a decadência cultural francesa. Nesse contexto há muito de ressentimento em torno do gênio, que funcionava mais como uma projeção narrativa que buscava elaborar a desvantagem cultural e científica em relação aos demais da Europa, particularmente à França.
Entre nós brasileiros é necessário revisitarmos de modo crítico essa ideia da pessoa inteligente. Não é possível sermos herdeiros do maior processo de brutalidade da humanidade, a escravidão, e achar que somos fofos, profetas das luzes, só porque estudamos na "federal". E que diante dessa diferença social acachapante, em que 60% das famílias brasileiras vivem com menos de um salário mínimo, seja possível a fantasia pequeno-burguesa da pessoa inteligente, o “cdf”. Temos que falar de condições materiais e afetivas para a vida escolar. Ignorar isso e se ater ao mítico gênio europeu é uma ideologia a ser combatida na esfera discursividade pública. Precisamos, enquanto educadores, estancar essa insídia que é performar nas relações acadêmicas uma expectativa no mínimo colonial e, na prática, tóxica e escrota de que haveria o gênio e quem não é deve ser desprezado. Essa prática nos circuitos sobretudo das “federais” é um crime contra a justiça social. Devo lembrar ao possível leitor apressado, não se defende a barbárie do não conhecimento, mas o tema em tela é sobre a relação social na construção do conhecimento libertador das mazelas brasileiras.
A reação ao Word e agora à I.A. tem feito ressurgir muito sobre essa desigualdade. O que dilata as pupilas dos puristas é que as tecnologias podem driblar os privilégios históricos e acossá-los nos seus lugares de conforto. A cólera esboçada por esses parece mais explicável sob a hipótese de um recalque: a tecnologia quebra o circuito de manufatura, quebra o fluxo de distribuição e fruição do capital simbólico, para aqui retomarmos a economia de Bourdieu.
Rapidamente notamos que a I.A. não é inteligente, ela só impressiona os incautos, é apenas um instrumento, assim como o Word. A revolta esboçada tem sido muito mais explicável noutra chave hipotética, não seria o medo de perder um lugar de privilégios sociais? As tecnologias não mexeriam na toca onde está guardado o capital simbólico da reacionária classe média brasileira? Um fato exemplar é o fetiche da língua, que entre nós tem tons muito particulares, quase de uma ordem entre o sagrado e o profano. Essa cena me parece muito bem tematizada pelo professor Fabrício Zavarise, no seu artigo de opinião "A bolha do 'bilinguismo' no Brasil vai estourar até 2030: o colapso estrutural". Segundo ele, muito em breve um aparelho de 200 euros irá resolver o acesso a outras línguas de modo nunca visto antes, fato que levará os caríssimos negócios de escolas bilíngues a não se sustentarem. O que nos permite emendar o raciocínio, não mais se justificará pagar dez mil reais por mês para estudar em uma escola assim, que vende a fantasia de salvação que seria ser fluente em inglês, essa língua bárbara. Não fará mais sentido exigir inglês para ganhar três mil reais na Avenida Paulista, em São Paulo. Portanto, o que o professor propõe é que restará a educação crítica e reflexiva, e pensar será a grande novidade, algo que soaria estranho para um René Descartes que já no século XVII propunha que era possível duvidar de quase tudo, menos de que "penso, logo existo". Pensar parece ser a nova moda, que não é tão nova.
A pergunta se você usou ou não a I.A. ou o Word parece só fazer sentido para quem ainda não compreendeu que essas tecnologias não substituem o pensamento crítico humano, que é rastreável rapidamente por outro humano crítico. Salta aos olhos, particularmente quando se trata de textos especializados, que um texto precário tem relação direta com a forma como o autor dá entrada nos prompts das I.As. Ademais, não se consegue fazer algo consistente se você não sabe fazer. As I.As. não farão luta de classes e não conseguem gerar originalidade nas produções científicas. Elas podem ser usadas apenas para processar dados segundo uma proposta intencional feita por um humano, ou para localizar fontes que um humano demanda. Elas não irão discutir com você se a questão posta é inadequada e se deveria ser refeita. Algumas esboçam limites éticos, como tem sido orientado pelos proprietários, mas nada além disso. Claro, não posso descurar que para a famigerada matemática a questão deve ser pensada de outro modo, ainda que para além da matemática fetiche da escola básica, não me parece estranho que se possa também aplicar a ideia aqui desenha mais pensando nas Humanidades.
O que deveríamos estar a fazer é o debate sobre as formas adequadas de uso do recurso. Se antes o Google "achava" os artigos e livros que poderiam me ser úteis, ou, já em 2010, a Scielo oferecia o serviço de busca por artigos segundo o interesse cadastrado e os enviava por e-mail, agora isso tem sido feito de modo ligeiramente diferente, mas continua a ser uma busca. O risco dessa busca é que por vezes parece haver um texto coeso à nossa frente, elaborado por esses modelos generativos de linguagem. Contudo, ao olhar crítico, nota-se não só clichês, padrões e exageros de adjetivos, além de alucinações de ideias atribuídas a autores, mas também frases gramaticalmente coesas que não dizem nada. Compete a quem desenvolve a função de professor justamente indicar esses problemas e aportar o olhar especializado, para que se possa perceber que um texto que parece genial é cheio de marcações de I.A. e ainda não leva a lugar algum. Precisamos construir formas adequadas de usar tais ferramentas para a criação de novos sentidos, pois elas poderão, no uso correto, produzir rupturas, ou, no uso inadequado, ser mais um instrumento do hipercapitalismo e de toda forma de manutenção e amplificação da injustiça social já gritante entre nós.
Trabalhos escolares que precisam de ajustes sempre existiram. Gaston Bachelard nos propõe algo como a verdade sendo uma série de erros retificados. Precisamos superar a ideia de que o erro é uma ofensa, um acinte aos bons costumes. O pavor do uso de tecnologias na educação é mais antigo que o Word e a I.A. Podemos ainda lembrar que na Espanha medieval, nos governos mouros daquelas terras, a introdução de livros escritos, em oposição à tradição oral, causou falatório e traumas. A tradição em torno da Qabalah, expressa no famoso Zohar, é um fóssil vivo sobre uma nova forma de registro das ideias, não mais oral. Uma pesquisa qualificada se mostra aos olhos de uma comunidade científica, e seu problema ou as suas vicissitudes não são usar o Word ou a I.A., o seu êxito ou fracasso se mostra na capacidade crítica ali aportada, na sua poesia. Cabe a nós, humanos educadores, o debate de propostas sobre como podemos não só usar essa técnica, mas também construir estratégias de superação dos problemas de precariedade que eventualmente desejamos superar. Nunca haverá o estudante ideal, porque, como já está no termo, ele é ideal, e uma leitura atenta de Platão já nos teria preparado para isso. Há 30 anos me empenho em lutas insanas, da privação material às mais diversas condições de dispersão, para me aferrar a uma vida de estudos. Os generosos colegas, amigos e amigas por vezes até pensam que sou inteligente, mas na verdade sou apenas persistente.
Compartilhe isso:
Descubra mais sobre AMF3
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Excelente reflexão, parabéns pela escrita doutor!
Obrigado!