Entre o Malhete e o Zap: Onde foi parar o desbastar da pedra bruta?
Drd. Cídio Lopes de Almeida (Resenha de Opinião)A ideia de construtor social é familiar aos praticantes da maçonaria. Embora existam variações dentro do Rito Escocês Antigo e Aceito, é possível identificar pilares compartilhados. O primeiro deles refere se à exigência, por uma parcela expressiva das potências, da crença no Grande Arquiteto do Universo (GADU), ainda que existam frações minoritárias em termos de números de adeptos no Brasil que não façam tal imposição. Outro ponto central é a definição da maçonaria como promotora do conhecimento, a qual não estabelece limites à livre investigação da verdade e demanda tolerância mútua entre os adeptos, para acomodar essa diversidade epistêmica. Somam se a esse escopo o combate à ignorância e a busca pela felicidade da humanidade como horizonte ético. Este último objetivo estabelece um paralelo direto com as premissas contidas nas obras Ética a Nicômaco e Política, de Aristóteles.
A partir do corpus didático e mistagógico, estabelece se uma abertura significativa para a investigação de múltiplas vias de conhecimento. Embora a filosofia neoplatônica se mostre como um dos fundamentos das Instruções dos Graus, permanece o incentivo a especulações diversas. Na etapa de companheiro maçom, a formação exige a transposição prática do saber acadêmico e simbólico, refutando a ideia de um aprendizado isolado da realidade. O iniciado é instado a aprofundar a interpretação dos símbolos maçônicos como chaves existenciais, aplicando os tanto em sua subjetividade quanto no meio social. Nesse estágio, destaca se a recomendação do estudo das sete artes liberais, que funcionam como eixos estruturantes em meio a uma vasta paisagem temática. É notória a influência de filósofos como Plotino e Proclo, especificamente por meio da exegese que este último realiza sobre o Timeu de Platão. No Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), essa herança manifesta se na doutrina dos números, tema transversal aos três graus simbólicos. Tal aproximação não é meramente circunstancial, mas fundamentada textualmente pela recorrência a conceitos numéricos oriundos da tradição neoplatônica.
O ápice desse processo formativo ocorre com a figura do mestre construtor, consolidada em torno da narrativa mítica de Hiram Abiff. Sua morte e renascimento simbólicos representam uma transmutação na percepção e no modo de agir no mundo. O mestre maçom assume o papel de arquiteto/construtor de si mesmo; antes de qualquer construção externa, ele opera uma iniciação interior fundamentada na mística ocidental. Essa dinâmica não se refere a fenômenos transcendentais apartados da realidade, mas à necessidade de um retorno reflexivo ao próprio ser e a si mesmo. Trata se da conversão do olhar, conceito explorado por filósofos como Pierre Hadot, que estabelece a conversão do olhar, enquanto exercício de introspecção, como condição indispensável para uma forma qualificada da consciência e para a atuação ética.
A prática maçônica, reiterada semanalmente nas sessões de Loja, oferece ao adepto um exercício estruturado para a produção de narrativas próprias sobre a realidade. Sob nossa análise, esse protagonismo no desenvolvimento de si, expresso na metáfora do desbastar a pedra bruta, aliado ao convite para atuar como um construtor social, define a vitalidade desse fenômeno de sociabilidade. Ao concluir a formação simbólica inicial, o mestre maçom assume o papel de protagonista em sua assembleia local, onde o produto de seu esforço é a interpretação constante dos temas que compõem a totalidade do real e que facilmente encontramos inscritas ao longo dos três rituais simbólicos.
Nesse contexto, surge uma reflexão fundamental sobre como esses indivíduos mobilizam os recursos mistagógicos e pedagógicos do ritual para pensar a complexa realidade social brasileira. Como proposta de pesquisa futura, mostra-se instigante investigar como essa como essa comunidade coloca em prática esse exercício de produção de sentido, narrativas nos circuitos contemporâneos de partilha de informação, como as interações em aplicativos de mensagens, vulgo Zap. Questionamos se existe um traço distintivo que diferencie o maçom do público em geral no trato da partilha das informações, bem como na recepção das informações. Em comparação, considera que o adepto se dedica por longos anos a revisitar um método rigoroso de pensamento e conduta, com estreita relação nesse campo da produção de narrativa. Essa dedicação persistente a uma metodologia específica sugere uma forma singular de processar a informação e de intervir no tecido social ou não? O que esses adeptos aportam de distintivo na esfera pública pela via da comunicação nas redes sociais?
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