Do Silêncio: Antropologia e Experiência Humana
Drd. Cídio Lopes de Almeida
A obra Do Silêncio, de David Le Breton, doutor em Antropologia e professor na Universidade de Estrasburgo, apresenta uma profunda reflexão sobre o estatuto e as múltiplas manifestações do silêncio na sociedade e na experiência humana. Publicada originalmente em francês em 1997 e traduzida para o português por Luís M. Couceiro Feio, a obra é uma crítica incisiva à utopia da comunicação moderna, que elege a palavra como solução para todas as dificuldades e vê o silêncio como o inimigo reconhecido do homo communicans.
Le Breton argumenta que o silêncio é muito mais do que a ausência de som ou a falha da máquina. Ele é uma modalidade do sentido e um registro ativo do seu uso, implicando interioridade, uma meditação e uma distância assumida em relação à turbulência das coisas. Longe de ser um vazio ou um resíduo, uma escória a ser rejeitada, o silêncio é o solo fértil de onde a palavra emerge e a condição necessária para que a comunicação não se torne impensável.
O Silêncio na Interação Social e na Política
O primeiro capítulo, Silêncios da Conversação, analisa como o silêncio pontua a fala e a torna inteligível, organizando e conferindo peso à troca social. O autor descreve os hábitos culturais do silêncio, notando que diferentes grupos, como os índios Athabascan ou os Sioux, têm ritmos de fala distintos que, quando em contato, podem gerar mal-entendidos e julgamentos negativos. A obra aborda ainda o sexo do silêncio, destacando que a mulher é frequentemente constrangida a ele, o que pode se tornar um sofrimento inconfessável do casal e um sintoma de desigualdade de condição.
Em Políticas do Silêncio, o foco recai sobre o silêncio como ferramenta de poder ou resistência. O silêncio da hierarquia é um meio de controle da interação, sendo a autoridade favorecida por um doseamento sábio de sombra e luz. O silêncio pode ser uma forma organizada de oposição, um ato positivo que nega o reconhecimento do outro, exemplificado na resistência passiva. Contudo, a opressão totalitária e a censura procuram ativamente reduzir ao silêncio a dissidência, retirando o valor da palavra ao privá-la de quem a ouça.
Disciplinas, Mística e os Limites do Dizer
Le Breton dedica capítulos substanciais às formas de silêncio que moldam o interior do indivíduo e a sua relação com o transcendente. No âmbito das Disciplinas do Silêncio, discute-se a lei do silêncio e o segredo, que é fundador da alteridade e exige um controle rigoroso da palavra. O segredo é considerado o irmão uterino do silêncio. A psicanálise é apresentada como uma longa conquista de um silêncio ativo, onde o analista se abstém de falar para melhor escutar, servindo o seu silêncio como arma terapêutica e quebra-voz para dar densidade às palavras do paciente.
Em As Espiritualidades do Silêncio, o autor explora como o silêncio é entendido em diversas tradições. O silêncio é a língua de Deus, pois Ele transcende as palavras. Para o místico, o silêncio é a via privilegiada que conduz a Deus e é mais eloquente do que qualquer discurso. Práticas como o hesicasmo na Igreja do Oriente e as meditações no Budismo Zen utilizam o silêncio como um meio de desligamento do sensível e de libertação da mente.
O Silêncio da Morte e do Indizível
O livro atinge um ponto existencial ao tratar do silêncio face à dor e à morte. Há uma estreita convivência entre o silêncio e o sofrimento, o silêncio e a agonia. O aparecimento de uma recordação dolorosa corta o fôlego e impõe o silêncio. O autor confronta o indizível, referindo-se à impossibilidade da linguagem perante o horror, como na Shoah. A palavra se oprime dentro de si, num silêncio que não é mais do que a forma extrema do grito. O sobrevivente de experiências traumáticas descobre que a sua fala se dissolve na indiferença dos outros, pois um universo de diferença dificilmente transponível separa aquele que viveu o horror e aquele que o escuta.
A doença grave também impõe um silêncio doloroso, alterando o sentido das palavras e forçando o indivíduo a viver na incerteza. O silêncio rodeia a morte, sendo a ausência da voz do desaparecido uma marca, quase metafísica, que abala a existência dos que ficam. Em resumo, Do Silêncio é um compêndio antropológico e filosófico que resgata o silêncio do seu papel de mero vazio, posicionando-o como uma força ativa e um recurso existencial.
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