Entre Convicção e Evidência: Epistemologia, Religião e os Limites do Debate entre Criacionismo e Evolucionismo - Dr. Cídio Lopes de Almeida

Entre Convicção e Evidência: Epistemologia, Religião e os Limites do Debate entre Criacionismo e Evolucionismo

Dr. Cídio Lopes de Almeida
Amf3 Escola de Filosofia
Resenha
CASTILLO, José M. Jesus: a humanização de Deus — Ensaio de cristologia. Tradução de João Batista Kreuch. Petrópolis: Vozes, 2015. 483 p.

1 Apresentação e ponto de partida

O presente texto parte de uma inquietação de fundo, a de que o debate entre criacionismo e evolucionismo é, em boa medida, um problema espistemológico mal formulado, ou melhor, um problema que frequentemente se recusa a ser formulado como tal. Tanto o criacionismo de certas vertentes evangélicas/protestantes quanto o ateísmo militante de alguns divulgadores científicos cometem erros simétricos, o de tratar questões de convicção como se fossem questões de evidência, e o de tratar evidências como se fossem convicções. A obra de José María Castillo, Jesus: a humanização de Deus, oferece, nesse contexto, um instrumental conceitual preciso e raras vezes explorado fora dos círculos da teologia acadêmica. O que Castillo elabora no capítulo inaugural do livro, a distinção entre 'conhecimento' e 'convicção', não é um argumento apologético, é uma contribuição epistemológica que, rigorosamente aplicada, tem consequências para o debate público sobre religião e ciência.

A tese central de Castillo é cristológica, Jesus representa, no cristianismo, não um projeto de divinização do humano, mas de humanização do divino. Mas essa tese não flutua no vácuo. Ela é sustentada por uma crítica consistente ao modo como a tradição cristã, desde os primeiros séculos, se deixou seduzir pela 'fascinação pelo conhecimento', o que Castillo rastreia desde o gnosticismo antigo até o racionalismo iluminista. É justamente nessa arqueologia intelectual que a obra converge, de modo surpreendentemente útil, com as questões levantadas pelo debate contemporâneo entre criacionismo e evolucionismo.

2 O contrabando epistemológico e a pretensão totalizante

Um dos problemas mais persistentes no campo das relações entre ciência e religião é o que se poderia chamar de contrabando epistemológico, a tentativa de conferir validade científica a enunciados que pertencem a uma ordem discursiva diferente, ou, inversamente, de invalidar convicções religiosas por meio de critérios que lhes são, por natureza, externos. Esse fenômeno não é exclusivo das ciências humanas, embora ali seja mais frequente, mas se estende a domínios como a física, a cosmologia e a biologia evolutiva, onde por vezes se tenta 'empalar', como se diz, o rigor científico com pressupostos metafísicos de origem religiosa, ou recusar qualquer pertinência à experiência religiosa com base em critérios epistêmicos que ela nunca reivindicou satisfazer.

O criacionismo, entendido aqui não apenas como narrativa cosmogônica bíblica, mas como postura intelectual que emergiu com força no século XIX em reação ao darwinismo, é sintomático dessa confusão. Ele não é simplesmente uma 'visão de mundo religiosa', o que seria epistemicamente legítimo e até necessário, dado que toda ciência opera sobre pressupostos que não ela mesma pode justificar. O criacionismo científico, tal como surgiu nos Estados Unidos a partir da segunda metade do século XIX e se consolidou ao longo do século XX, pretende ingressar no mesmo campo de disputas em que opera a biologia evolucionária. Ao fazê-lo, desloca um argumento de fé, que tem sua própria racionalidade interna, para um terreno onde os critérios de validação são radicalmente outros. Castillo identifica, precisamente, esse deslocamento como uma 'ratoeira' (retomando Wittgenstein), uma confusão entre jogos de linguagem que obedecem a regras distintas e que, ao serem misturados, produzem não iluminação, mas ofuscamento.

Do outro lado, a resposta cientificista ao criacionismo frequentemente comete o erro oposto. O filósofo Michel Onfray, citado por Castillo, ilustra o caso ao afirmar, com 'tanta segurança quanto despreocupação', que a existência de Jesus não foi comprovada historicamente, como se a não comprovação histórica encerrasse a questão. O mesmo Castillo aponta o caso de Richard Dawkins, que declara, 'Cremos na evolução porque há evidências que a apoiam, e deixaríamos de crer nela se, da noite para o dia, aparecessem novas evidências que a negassem'. Para Castillo, aqui a ratoeira foi 'mais cruel', Dawkins confunde 'crença' com 'evidência', duas dimensões do saber que têm pontos de contato, mas que operam segundo lógicas fundamentalmente distintas.

3 Convicção e conhecimento: a distinção que o debate ignora

A distinção que Castillo elabora com rigor, e que permanece quase que completamente ausente do debate público, é aquela entre 'conhecimento' e 'convicção'. O conhecimento, diz ele, apoia-se em 'critérios confiáveis sobre a validade de nossos juízos' (retomando Kant). Seu caso paradigmático é a matemática, dizer que dois mais dois são quatro é um conhecimento que 'não admite dúvida', que 'se impõe por força de sua própria lógica' e que, por isso mesmo, não 'necessita da liberdade, nem dá lugar a ela'. O conhecimento científico ou histórico, por mais rigoroso que seja, 'sozinho não tem por que modificar a vida daquele que o possui'.

A convicção, por outro lado, também se baseia em critérios que, para quem os percebe dessa forma, são confiáveis, mas essa confiabilidade 'não está, nem poderia estar, isenta de possíveis dúvidas'. Por isso a convicção 'tem que lançar mão da decisão. De uma decisão livre'. É daí que decorre, para Castillo, que o mero conhecimento histórico ou científico não é, por si só, 'um ato religioso', ao passo que a convicção pertence à 'estrutura básica do ato religioso'. O historiador mais erudito sobre os evangelhos não se torna crente apenas por esse saber; um ateu pode conhecer toda a cristologia patrística sem que isso produza fé. A fé, no sentido preciso de convicção religiosa, pertence a outra ordem de justificação.

Castillo mobiliza Charles S. Peirce para precisar o que é uma convicção, ela 'consiste principalmente no fato de alguém estar disposto refletidamente a deixar-se guiar em sua atividade por uma fórmula de que está convencido'. A convicção, assim entendida, não é arbitrária, tem critérios, mas seus critérios não são os critérios da verificabilidade empírica. Ela se mede por seus efeitos sobre o comportamento, pela consistência entre o que se afirma e o modo de vida que se leva. Habermas, retomado por Castillo, diz que as convicções 'definem o âmbito do comportamento futuro que o sujeito agente tem sob controle'. Trata-se, portanto, de uma categoria epistêmica plena, mas distinta da científica.

Essa distinção tem consequências diretas para o debate sobre criacionismo e evolucionismo. Se a narrativa criacionista é, em sua profundidade, uma convicção, uma forma de orientar a existência em relação ao cosmos, a uma origem e a um destino, então compará-la com a teoria evolutiva, que é um conhecimento científico sustentado por evidências empíricas acumuladas, é um erro de categoria. Não se pode refutar uma convicção com dados, assim como não se pode sustentar uma teoria científica com testemunhos de fé. O que se pode e deve fazer, e o que o debate raramente faz, é demarcar com clareza o que pertence a cada domínio e exigir que cada um responda apenas pelas perguntas que é capaz de responder.

4 O fundamentalismo como sintoma e o horizonte do debate

O surgimento do fundamentalismo religioso moderno, como Castillo demonstra, não é um fenômeno espontâneo, é uma reação ao desamparo produzido pela Modernidade. Com o Iluminismo, o Romantismo e o Positivismo, a ciência conquistou progressivamente a hegemonia narrativa sobre a realidade. A secularização não eliminou a religiosidade das pessoas, como os veredictos sociológicos do século XIX anunciavam, mas deslocou irreversivelmente a religião institucionalizada de seu papel de detentora da totalidade. A morte de Deus em Nietzsche não é apenas um diagnóstico filosófico, é a fotografia de uma reconfiguração profunda das epistemes europeias, acelerada pela industrialização e pela emergência das ciências modernas como novas autoridades cognitivas.

É desse contexto que emana, como reação, a tentativa de conferir à religião uma validade científica que ela nunca precisou ter, e que, ao buscar, perde algo essencial de si mesma. As variações são múltiplas, de uma religião civil reduzida a moralidade, passando pelos esoterismos e teosofias do século XIX, até o criacionismo científico do século XX. Em todos esses casos, a religiosidade procura acomodar-se à linguagem hegemônica da ciência, ora para dela extrair legitimidade, ora para com ela competir. Castillo mostra que o fundamentalismo cristão 'nasce e cresce quando as pessoas se sentem ameaçadas e encurraladas', e a ameaça, no caso, é precisamente a ciência moderna e o pluralismo cultural que ela favorece.

A saída apontada pelo próprio Castillo não é a capitulação da religião diante da ciência, nem o inverso. É o reconhecimento honesto dos limites de cada forma de saber. O argumento de fé não é um argumento científico, e pretendê-lo é não apenas intelectualmente incorreto, mas teologicamente empobrecedor. A convicção religiosa tem sua própria força, sua própria consistência interna, sua própria capacidade de transformar vidas e orientar comportamentos, precisamente porque não opera pela coerção da evidência, mas pela decisão livre. Quando o criacionismo pretende ser ciência, renuncia ao que tem de mais genuíno, a capacidade de narrar o humano a partir de um horizonte de sentido que a biologia evolutiva, por definição, não pode fornecer.

A crítica ao contrabando epistemológico, portanto, não é uma defesa da irracionalidade religiosa. É, antes, uma defesa da especificidade de cada forma de conhecimento e de convicção. O debate entre criacionismo e evolucionismo só avançará quando ambos os lados reconhecerem que estão respondendo a perguntas diferentes, a ciência pergunta como o universo e a vida se organizam e evoluem; a religião, em suas formas mais lúcidas, pergunta o que significa existir nesse universo e como viver bem à luz dessa existência. Confundir essas perguntas não é apenas um erro lógico, é um empobrecimento duplo, da ciência, que se vê forçada a disputar território que não é seu, e da religião, que abandona sua profundidade ao tentar falar uma língua que não é a sua.

Referência

CASTILLO, José M. Jesus: a humanização de Deus — Ensaio de cristologia. Tradução de João Batista Kreuch. Petrópolis: Vozes, 2015.

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