A GUERRA NO IRÃ E A FÁBRICA DE NARRATIVAS - Drd. Lopes de Almeida

A MORTE QUE O OCIDENTE NÃO SOUBE LER

Martírio xiita, sionismo cristão e a religião do capital num conflito incompreendido
Drd. Cídio Lopes de Almeida
Cientista da Religião e Filósofo
Resenha crítica : Março de 2026

Ainda no fatídico dia 28 de fevereiro de 2026, como já resenhamos, aviões de combate israelenses lançaram mísseis sobre a residência oficial de Ali Khamenei em Teerã. O guia supremo da República Islâmica morreu aos 86 anos, após 37 anos de mandato. A televisão estatal iraniana confirmou a morte às 4h58 do dia 1.º de março. O apresentador, em lágrimas, proclamou que o ayatollah havia alcançado o martírio após uma vida dedicada à proteção da revolução.[1] Quarenta dias de luto nacional foram decretados, em conformidade com a tradição xiita herdada da comemoração de Hussein ibn Ali em Ashura. As primeiras reações ocidentais oscilaram entre a frieza analítica e a celebração aberta. Donald Trump escreveu que justiça havia sido feita e que o regime iraniano era uma quadrilha de marginais sedentos de sangue. O ministro israelense da Defesa declarou que o eixo do mal sofrera um golpe devastador.[2]

A grande imprensa dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França tratou o acontecimento como a eliminação de um ditador, um momento decisivo, o fim de uma era. O que o aparato midiático e político ocidental não foi capaz de ler, ou deliberadamente ignorou, é que dentro do universo simbólico do islã xiita a morte de Khamenei não era a eliminação de um adversário geopolítico. Era um martírio. E o martírio, no xiismo duodecimano (em árabe, اثنا عشرية, Ithnāˤashariyya), que é o maior ramo do xiismo, não é derrota. É vitória espiritual, confirmação da justiça divina e semente de mobilização histórica.

A figura do mártir, shahid em árabe e persa, ocupa no xiismo um estatuto teológico e político singular. Quem morre em defesa da comunidade dos crentes e contra a opressão não perece, mas transcende.[3] É preciso retroceder ao ano 680 d.C. e ao campo de batalha de Karbala para compreender o peso desta simbologia. O imame Hussein ibn Ali, neto do Profeta Maomé, recusou-se a jurar lealdade ao califa Yazid I, que ele considerava ilegítimo e corrupto. Cercado e massacrado com sua pequena comitiva, Hussein escolheu a morte em testemunho da sua fé. Esse episódio fundou o xiismo como tradição distinta, erguida sobre a ideia de que o sofrimento dos justos, longe de ser uma derrota, é a prova mais elevada da autenticidade da causa. A decisão de Khamenei de permanecer na sua residência oficial, em vez de deslocar-se para um bunker secreto ou deixar Teerã, não foi imprudência nem paralisia diante da ameaça. Foi, segundo a lógica da teologia política xiita, uma escolha deliberada. O guia supremo sabia que era alvo. A CIA havia infiltrado o seu entourage, conforme reportou o New York Times, corroborado pelo Al Jazeera.[4] E ficou. A decisão ressoa precisamente com a de Hussein em Karbala. Não fugir, não capitular, aceitar a morte como sinal de que a causa é maior do que a vida do indivíduo. Para os seus, ele não foi assassinado, foi elevado. A plataforma ISM-France escreveu sem rodeios que o martírio de Khamenei não marcava o fim de uma era, mas a transformação da Revolução Islâmica num movimento ainda mais profundo, politicamente e espiritualmente irreversível.[5]

Este universo simbólico é radicalmente estranho à sensibilidade ocidental contemporânea, e essa estranheza não é acidental. Ela é o produto de uma civilização moldada pelo hipercapitalismo, pela economia da atenção das redes sociais e por uma cultura popular de massa em que a morte é simultaneamente onipresente como espetáculo e negada como horizonte de sentido.

No capitalismo avançado, e especialmente na sua versão hipermedializada norte-americana, a morte ocupa um lugar paradoxal. Ela está em todo o lado como espetáculo, nos noticiários, nos videogames, nos filmes de ação, mas é radicalmente expurgada como experiência íntima e como horizonte de sentido. A morte é algo que acontece aos outros, aos vilões, aos fracos. A indústria cinematográfica de Hollywood construiu ao longo de décadas uma gramática visual em que o protagonista, sempre do lado do Bem, sempre americano ou ocidental, sobrevive mesmo às situações mais impossíveis. Em toda a mitologia das telas, desde Rambo a Missão Impossível, desde os Vingadores às franquias de ação contemporâneas, o herói pode sangrar e sofrer, mas não morre. A sua morte seria o fracasso da história. A morte, nesta economia simbólica, é o destino dos antagonistas, e é desonrosa. É o sinal de que se estava errado. Esta gramática acaba por fabricar, durante décadas, uma percepção coletiva para a qual oferecer voluntariamente a própria vida por uma causa transcendente não apenas é incompreensível, mas suspeita e legada às coisas que não se pensa. O mártir parece, nesta ótica, um fanático suicida ou alguém que foi manipulado. A profundidade espiritual do ato não é sequer considerada como hipótese de interpretação.

Walter Benjamin, em 1921, antecipou como análise esta estrutura em que no capitalismo há um modo religioso de funcionar. No fragmento O capitalismo como religião, Benjamin argumentou que o capitalismo não é apenas um sistema econômico. É, nas suas próprias palavras, uma religião essencialmente prática, um culto incessante, sem trégua nem misericórdia.[6] Diferente das religiões tradicionais, que propunham a expiação da culpa, o capitalismo é uma religião culpabilizante que gera dívida e angústia sem oferecer redenção. O paraíso foi secularizado e transferido para o plano horizontal. A imortalidade é a da marca pessoal, do legado financeiro, da fama digital, já em chave dos nossos dias. A ideia de vida eterna existe no capitalismo, porém ela é desta vida, mensurável em curtidas, patrimônio e visibilidade. Michael Löwy, num estudo publicado na revista Raisons Politiques em 2006, aprofundou esta leitura, mostrando como Benjamin e Max Weber se complementam.[7] Weber demonstrou que o espírito do capitalismo nasceu do protestantismo ascético, na crença de que o sucesso material é sinal da graça divina. Benjamin radicalizou essa intuição e mostrou que o capitalismo não tem apenas origens religiosas, sendo ele próprio uma religião, com rituais como a bolsa e o consumo, com templos como os centros comerciais e as redes sociais, com santos como os bilionários-influenciadores e com a sua própria escatologia, o crescimento infinito e o progresso tecnológico. Neste quadro, o martírio xiita é simplesmente intraduzível. O vocabulário moral e existencial do Ocidente hipercapitalista não dispõe de categorias para nomear a morte voluntária como ato de excelência espiritual.

Do outro lado do conflito, o Ocidente não é, de forma alguma, religiosamente neutro. A administração Trump constitui a expressão mais acabada de uma síntese teológico-política que combina o fundamentalismo evangélico americano, o sionismo cristão e uma visão escatológica do Médio Oriente como palco de cumprimento das profecias bíblicas. Em 5 de março de 2026, no sexto dia de guerra contra o Irã, o chefe de gabinete adjunto da Casa Branca publicou um vídeo mostrando Donald Trump sentado no Salão Oval, mãos entrelaçadas, olhos fechados, rodeado de pastores evangélicos que rezavam com as mãos pousadas nos seus ombros.[8] A cena não era extemporânea, pois desde o início do segundo mandato, em janeiro de 2025, Trump criou o Bureau of Faith dentro da Casa Branca, nomeando a pastora Paula White-Cain como sua diretora. Em maio de 2025, o secretário da Defesa Pete Hegseth dirigiu uma oração no auditório do Pentágono descrevendo Trump como um líder nomeado por Deus.[9] No discurso sobre o Estado da União de fevereiro de 2025, Trump celebrou o que chamou de um imenso renascimento da religião, da fé, do cristianismo e da crença em Deus. Este dispositivo ideológico tem nome preciso. Conforme analisou o professor André Gagné, da Universidade Concordia de Montreal, trata-se do sionismo cristão, uma corrente político-religiosa antiga e influente no mundo evangélico que permanece porém desconhecida para a maioria dos analistas.[10] Surgido em meados do século XIX no Reino Unido e nos Estados Unidos, o sionismo cristão assenta na crença de que o apoio incondicional ao Estado de Israel, incluindo a expansão das suas fronteiras até às fronteiras bíblicas, é condição necessária para o retorno de Cristo à Terra. A maior organização pró-israelense dos Estados Unidos é hoje a Christians United for Israel, fundada pelo pastor John Hagee em 2006, com mais de dez milhões de membros. No ambiente do MAGA, Trump é comparado ao rei Cyrus, soberano de outra tradição religiosa e não judeu que reconstruiu o Templo dos judeus.

Como sublinharam os analistas Frederick Clarkson e Ben Lorber, em investigação publicada pelo Orient XXI, este movimento tornou-se um dos principais fatores de desinibição do expansionismo trumpiano, enfraquecendo os freios institucionais ao uso da força.[11] O paradoxo cruel é que duas narrativas religiosas se confrontam neste conflito, e o Ocidente que se autopercebe laico e racionalista apenas enxerga uma delas como religiosa. O lado religioso ocidental é invisibilizado, descrito como cultura política, identidade eleitoral, interesse estratégico. Esta assimetria de leitura é ela mesma uma forma de supremacismo civilizacional. Merece ainda nota que o xiismo não é uma variação fundamentalista do islã. O fundamentalismo é fenômeno muito mais frequente no sunismo, de índole ortodoxa e mais refratária à hermenêutica. O xiismo incorpora uma tradição de interpretação ativa, de jurisprudência viva e de relação emotiva e intelectual com os textos sagrados, que o torna paradoxalmente mais flexível e mais propenso à elaboração de uma teologia política sofisticada. Confundir os dois é um dos erros mais recorrentes e mais graves da cobertura jornalística e acadêmica ocidental deste conflito.

O conflito tem também uma camada mercantil que não pode ser desligada da sua vestidura religiosa. Em 22 de janeiro de 2026, no Fórum Económico Mundial de Davos, Donald Trump e o seu genro Jared Kushner apresentaram o Board of Peace, um conselho presidido pelo próprio Trump e composto por membros da sua família, associados de negócios e doadores de campanha, entre eles o promotor imobiliário israelense-cipriota Yakir Gabay e o CEO de capital privado Marc Rowan. Kushner, que descreveu o conflito israelo-palestiniano como nada mais do que uma disputa imobiliária, apresentou esboços de torres de luxo com terraços sobre uma alameda arborizada. O chamado Projeto Aurora, conforme reportou o Wall Street Journal, prevê a construção de mais de 100.000 habitações em Rafah, 170 torres de turismo costeiro, hotéis de luxo, centros de dados e uma rede ferroviária de alta velocidade.[12] Segundo o documento, a Riviera de Gaza poderia gerar mais de 55 bilhões de dólares em lucros a longo prazo. Uma firma de resposta a catástrofes, a Gothams LLC, apresentou à Casa Branca uma proposta que, segundo investigação do Mondoweiss, garante 300% de lucro através de um contrato de logística de sete anos.[13] A empresa de capital privado de Kushner, Affinity Partners, já tem vários bilhões de dólares investidos nos estados do Golfo, incluindo 2 bilhões provenientes da Arábia Saudita. Segundo investigação de David D. Kirkpatrick para o New Yorker, a família Trump monetizou a presidência na casa dos 4 bilhões de dólares.[14] Anthony Samrani, redator-chefe do jornal libanês L'Orient le Jour, resumiu com precisão que a ideia subjacente é a de que tudo se compra, que Gaza pode ser um território muito interessante para fazer negócios, e que a única pedra no sapato deste grande projeto imobiliário são os 2,5 milhões de palestinos que ainda vivem no enclave.[15]

Quando Trump reza com pastores evangélicos no Salão Oval enquanto os seus associados planificam a Riviera de Gaza, não estamos perante uma contradição entre fé e negócio. Estamos perante a expressão mais acabada de uma religião híbrida, aquela que Benjamin intuiu e que hoje se tornou plenamente visível. O capitalismo como religião não exclui o sionismo cristão. Absorve-o, articula-o, instrumentaliza-o. A guerra santa e o negócio imobiliário são os dois lados da mesma moeda. Por concentrar-se nos interesses e nas estratégias, a análise ocidental laica e materialista perde de vista que os atores falam, antes de mais, numa linguagem religiosa, e que essa linguagem não é mera embalagem ideológica de interesses materiais. É a estrutura profunda que organiza a percepção da realidade, delimita o que é possível, legitima o sacrifício e confere sentido à morte.

A incompreensão ocidental da morte de Khamenei é o resultado de dois sistemas axiológicos radicalmente incompatíveis sobre o que constitui a excelência humana, aquilo que os gregos designavam como aristói, os melhores, os que vale a pena ser. No universo burguês judaico-cristão ocidental, herdeiro da ética protestante weberiana e do iluminismo liberal, o aristói é o indivíduo bem-sucedido, aquele que acumula riqueza, visibilidade e poder, que sobrevive e prospera, que ganhou o jogo da vida. A morte prematura, e especialmente a morte deliberadamente aceite, é o sinal mais claro do fracasso. No universo da cultura persa islâmica xiita, a matriz é radicalmente outra. O aristói é o testemunho fiel, o shahid, aquele que dá testemunho com o próprio corpo da autenticidade da sua crença. A excelência não é a sobrevivência, mas a integridade moral perante a morte. O mais elevado aristói da história do xiismo não é o guerreiro vitorioso. É Hussein ibn Ali, que perdeu a batalha de Karbala e ganhou a eternidade. É o teólogo Ali Shariati, assassinado em 1977, cuja influência intelectual sobre a Revolução Islâmica foi maior morto do que vivo. É Qassem Suleimani, general dos Guardiões da Revolução morto num ataque americano em Bagdade em 2020, cujo funeral reuniu milhões de pessoas nas ruas de Teerã.

A ciência das religiões há muito assinalou que a incompreensão de um conflito de matriz religiosa por observadores seculares constitui uma das maiores fontes de erro de previsão e de análise estratégica. Olivier Roy tem alertado sistematicamente para o facto de os analistas ocidentais aplicarem categorias laicas, interesses nacionais, cálculo racional, equilíbrios de poder, a atores cuja racionalidade é estruturada por uma lógica teológica.[16] O resultado é uma análise que acerta na superfície e erra na profundidade. No caso da morte de Khamenei, esta cegueira foi particularmente visível. A grande maioria dos analistas das televisões ocidentais tratou a questão como se o Irã fosse um Estado como qualquer outro, cujo líder havia sido neutralizado. Nenhum abordou o facto de que, do ponto de vista da doutrina do Velayat-e Faqih, a tutela do jurisconsulto islâmico que estrutura a República Islâmica, a morte do guia supremo em confronto com os inimigos da fé é o momento fundador de uma nova fase de mobilização, e não o fim de um regime.[17] Este conflito, e os que lhe sucederão, só pode ser compreendido na sua totalidade quando se aceita que estamos perante uma guerra em que ambos os lados falam, antes de mais, em linguagem religiosa. O laicismo analítico das mídias ocidentais, a sua recusa de levar a sério o vocabulário teológico dos atores, não os torna mais objetivos, mas torna-os mais cegos. A realidade do conflito está precisamente naquilo que eles descartam como irracional, na teologia do martírio xiita, no escatologismo do sionismo cristão, na religião implícita do capitalismo imobiliário trumpiano.

Notas e Referências

[1]
France Info, "Mort d'Ali Khamenei: au cœur des 24 heures qui ont fait basculer l'Iran", 1er mars 2026. Acessar fonte
[2]
RTS, "Principales réactions internationales après la mort d'Ali Khamenei", 1er mars 2026. Acessar fonte
[3]
Eric Lob (FIU) / The Conversation, "Khamenei's killing plays into Shiite Islam's reverence for martyrs", mars 2026. Acessar fonte
[4]
AL JAZEERA. "Inside the US-Israel plan to assassinate Iran's Khamenei". Al Jazeera, 3 mar. 2026. Acessar fonte
[5]
ISM-France, "Le martyre de l'Imam Khamenei et la révolution qu'aucun empire ne pourra détruire", 3 mars 2026. Acessar fonte
[6]
Walter Benjamin, Le capitalisme comme religion (fragment de 1921, póstumo). Éditions Payot & Rivages, Paris. Acessar fonte
[7]
Michael Löwy, "Le capitalisme como religion: Walter Benjamin et Max Weber", Raisons politiques, n.º 23, Cairn, 2006. Acessar fonte
[8]
Atlantico.fr, "À la Maison-Blanche, Donald Trump prie avec des pasteurs évangéliques", 5 mars 2026. Acessar fonte
[9]
RTBF (Q. Vanhoof), "Aux États-Unis, la religion s'immisce dans tous os rouages de l'État", septembre 2025. Acessar fonte
[10]
André Gagné / The Conversation, "Le sionisme chrétien, une influence majeure sur la nouvelle administration Trump", février 2025. Acessar fonte
[11]
Frederick Clarkson & Ben Lorber / Orient XXI, "Le sionisme chrétien en croisade", mai 2025. Acessar fonte
[12]
ABC News, "Jared Kushner lays out Trump-backed master plan for post-war Gaza", 22 jan. 2026. Ver também RTS, 8 sept. 2025. Acessar fonte
[13]
Mondoweiss, "Meet the companies and billionaires looking to make a massive profit off Trump's plans in Gaza", fév. 2026. Ver Arab Center DC. Acessar fonte
[14]
Washington Post, "Trump's Gaza Riviera Echoes Kushner Waterfront Property Dreams", 5 fév. 2025. Ver New Yorker, David D. Kirkpatrick. Acessar fonte
[15]
L'Orient le Jour / Anthony Samrani, citado por AfricTelegraph, "Assassinat du guide suprême iranien", 4 mars 2026. Ver ECFR. Acessar fonte
[16]
France 24, "Bureau de la foi, nationalisme chrétien au Pentagone: Donald Trump est-il en croisade?", 6 mars 2026. Ver Diakonos.be. Acessar fonte
[17]
Le Grand Continent, "Le último martyr du régime: la mort du Guide et la crise du récit révolutionnaire en Iran", 3 mars 2026. Acessar fonte
© 2026 Drd. Cídio Lopes de Almeida : Ciência da Religião e Filosofia

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