A Guerra no Irã e a Fábrica de Narrativas
Cientista da Religião e Filósofo
Na madrugada do sábado 28 de fevereiro de 2026, enquanto milhões de iranianos se preparavam para mais um dia comum de trabalho e estudo e das coisas normais do cotidiano, pois sábado é o primeiro dia útil da semana no Irã, aviões norte-americanos e israelenses iniciaram a Operação Epic Fury, despejando toneladas de bombas sobre Teerã e pelo menos outras quatro cidades. Cento e cinquenta e três meninas foram mortas quando uma escola primária feminina em Minab foi atingida; hospitais foram bombardeados em Teerã; o líder supremo Ali Khamenei foi assassinado em sua residência.1 A resposta da grande mídia brasileira foi imediata e reveladora: a GloboNews posicionou sua repórter em Tel Aviv, de onde a câmera registrou em tempo real os mísseis iranianos sendo interceptados pelo sistema Iron Dome, espetáculo que virou abertura dos telejornais e cartão-postal da superioridade tecnológica ocidental.2 As cento e cinquenta e três crianças de Minab foram mencionadas, quando o foram, em parágrafo final, sem imagens, sem nomes, sem rostos.
O contraste não é casual, é estrutural. Há décadas, os grandes conglomerados de comunicação brasileiros reproduzem uma visão de mundo construída nos centros de poder do hemisfério norte, na qual o Ocidente encarna sempre o princípio civilizatório e o Oriente Médio funcionam como seu negativo necessário, o caótico, o irracional, o ameaçador. Rubem Alves demonstrou em O que é Religião que o fenômeno religioso não se limita às instituições eclesiais, mas se instala em qualquer domínio da experiência humana onde a intensidade simbólica suprime a possibilidade de questionamento crítico.3 A narrative midiática sobre a guerra no Irã funciona precisamente dessa forma, ela não informa, ela consagra. Ela não descreve o mundo, ela o funda segundo uma cosmologia particular, com seus heróis, seus demônios e seus rituais cotidianos de reafirmação identitária. Por isso é um tema de interessa das pesquisas das Ciências das Religiões.
O episódio atual não pode ser lido sem o contexto da chamada Guerra dos Doze Dias, travada em junho de 2025, quando Israel iniciou ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas em Natanz, Fordow e Isfahan, sob o codinome Operação Leão Ascendente. A retaliação iraniana veio com mísseis balísticos e drones dirigidos a cidades israelenses, e os Estados Unidos intervieram diretamente em 21 de junho, bombardeando três sítios nucleares iranianos, antes que um cessar-fogo encerrasse o conflito doze dias após seu início.4 A mídia brasileira cobriu esse episódio segundo o mesmo roteiro que repete agora, glorificação das capacidades do Iron Dome, tratamento das vítimas israelenses como tragédia humanizada e das vítimas iranianas como dano colateral inevitável, reverência quase litúrgica diante de cada declaração de Netanyahu e Trump. Quando o Irã, em plenas negociações em Genebra, havia concordado com concessões nucleares inéditas, incluindo zerar seus estoques de urânio enriquecido, Israel atacou no dia seguinte, sem que essa circunstância fundamental recebesse o peso analítico que merecia nos principais noticiários brasileiros.5
Eduardo Viveiros de Castro, ao abordar o conceito de perspectivismo, mostrou que a violência epistemológica consiste em impor uma única perspectiva como versão universal da realidade, apagando todas as demais.6 É exatamente o que opera na cobertura da guerra no Irã, a perspectiva de Washington e Tel Aviv é tratada como fato objetivo; a perspectiva iraniana é tratada como propaganda suspeita. Quando o CENTCOM norte-americano afirma ter destruído a sede da Guarda Revolucionária, a afirmação circula como notícia; quando o Irã declara ter atingido o porta-aviões USS Abraham Lincoln, os veículos brasileiros reproduzem a versão entre aspas, assinalada com o marcador semântico da dúvida.7 Essa gramática de credibilidade diferencial não é produto de ingenuidade jornalística. É a aplicação sistemática de um código que distribui autoridade epistêmica segundo a posição geopolítica de quem fala.
O especialista em religiões José Jorge de Carvalho, da Universidade de Brasília, desenvolveu uma análise das formas pelas quais discursos de poder se apropriam das estruturas simbólicas do sagrado para naturalizar hierarquias entre grupos humanos. O que ele observa no campo das identidades étnicas e religiosas no Brasil reproduz-se com precisão desconcertante no campo da cobertura de guerras, certos povos são apresentados como sujeitos da história, portadores de projetos legítimos de civilização; outros são apresentados como obstáculos, ameaças ou monstros a serem neutralizados. A mídia não informa essa distinção, ela a performa, ritualmente, a cada edição dos telejornais e a cada manchete digital.
Um exemplo concreto e verificável desta performance mítica pode ser observado na matéria da CNN Brasil que cobre os motivos declarados do ataque norte-americano ao Irã. O texto reproduz, sem o devido escrutínio crítico, a afirmação de Trump de que o Irã estaria construindo mísseis que em breve alcançariam os Estados Unidos, e só em parágrafo muito posterior menciona que essa afirmação não é corroborada por informações de inteligência disponíveis ao próprio governo americano.8 A estrutura retórica é a técnica básica de toda propaganda bem-feita, a impressão marcante fica, o dado que a refuta evanesce. Em paralelo, a Agência Brasil notícia os desdobramentos do ataque sem questionar em nenhum momento a legalidade da operação sob o direito internacional, embora o Brasil, ao lado de África do Sul, Cuba e Bolívia, tenha sido um dos países que condenaram os ataques israelenses como violação do direito internacional.9
Esta cumplicidade narrativa tem raízes históricas profundas, e reconhecê-las é indispensável para compreender sua persistência. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a historiografia e o jornalismo ocidentais construíram uma narrativa canônica segundo a qual o Desembarque da Normandia, em 6 de junho de 1944, foi o grande ponto de inflexão que decidiu o conflito contra o nazismo. O que essa narrativa sistematicamente silencia é que, quando aqueles soldados desembarcaram, a Wehrmacht já estava destroçada no front oriental, das trezentas divisões alemãs em combate, mais de duzentas enfrentavam o Exército Vermelho. A União Soviética perdeu entre 26 e 27 milhões de pessoas para derrotar o nazismo, mais de 80% das baixas aliadas totais. A Batalha de Stalingrado, sozinha, consumiu mais de dois milhões de vidas e foi o verdadeiro ponto de virada da guerra. O Dia D foi o arremate de uma luta que outros já haviam vencido com seu sangue. O apagamento sistemático da URSS da memória histórica ocidental e a magnificação correspondente do papel norte-americano não são acidentes historiográficos; são escolhas políticas que a grande mídia brasileira introjetou como verdade natural. O que se faz hoje com o Irã, fez-se ontem com Moscou.
Essa operação de apagamento tem uma dimensão que vai além da política e que o olhar do especialista em religião está particularmente equipado para revelar. Mircea Eliade descreveu em sua obra fundamental, amplamente traduzida e estudada no Brasil, como toda sociedade humana constrói uma divisão primordial entre cosmos e caos, entre o espaço sagrado do ordenado e a periferia ameaçadora do monstruoso.10 O Ocidente midiático funciona exatamente segundo essa cosmologia, ele ocupa o centro, o espaço do legítimo, do histórico, do racional; o Irã ocupa a borda, o lugar do caos, da irracionalidade, daquilo que ameaça a própria possibilidade de ordem. Essa divisão não se sustenta por argumentos, ela se sustenta por repetição ritual, pela liturgia diária dos noticiários que reafirmam, a cada edição, quem é o herói e quem é o demônio. Por isso ela é tão resistente à refutação empírica; mitos não morrem quando confrontados com fatos, eles se dissolvem apenas quando sua estrutura é exposta e quando o leitor consegue ver o mecanismo simbólico por baixo do espetáculo informativo e desse modo é mais do que nunca oportuno o aporte dos cientista das religiões para o tema em curso.
É nesse ponto que a atuação criminosa de Donald Trump e Benjamin Netanyahu encontra seu escudo mais eficaz. O Tribunal Penal Internacional emitiu, em novembro de 2024, mandado de prisão contra Netanyahu por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso deliberado da fome como método de guerra em Gaza. A reação dos grandes veículos brasileiros foi tratar a decisão como polêmica e contestável, adjetivos que nunca aparecem quando o TPI processa líderes africanos ou latino-americanos. Trump, por sua vez, declarou publicamente que as bombas cairão em todos os lugares sobre o Irã e estimou que a guerra durará de quatro a cinco semanas. Essas declarações, pronunciadas por qualquer líder do Sul Global, seriam noticiadas como evidência de barbárie. Na boca do presidente dos Estados Unidos da América do Norte, tornam-se retórica dura ou estilo negociador. A linguagem da absolvição prévia não é uma falha do jornalismo; é sua função mais sofisticada, o ponto em que a gramática das notícias e a gramática do mito se tornam indistinguíveis.
Há uma frase atribuída a Ésquilo, dramaturgo da Atenas clássica, que percorre os debates sobre guerra e imprensa há mais de dois milênios, “na guerra, a verdade é a primeira vítima”. Ela nunca foi tão precisa quanto hoje, quando as cento e cinquenta e três meninas de Minab são enterradas enquanto os telejornais brasileiros exibem, em câmera lenta e com trilha sonora heroica, os mísseis sendo interceptados sobre Tel Aviv. Reconhecer essa assimetria não é romantizar a vida no Irã. É aplicar ao conflito o mesmo rigor, o mesmo ceticismo e o mesmo humanismo que deveríamos exigir de um jornalismo digno desse nome, e que a mídia corporativa brasileira, fiel à sua função histórica de correia de transmissão dos interesses do eixo Washington e Tel Aviv, deliberadamente recusa.
Notas
1. Agência Brasil. "Guerra no Oriente Médio tem mais bombardeios e mortes neste domingo". 1 mar. 2026. Disponível em: EBC.
2. Diário do Centro do Mundo. Repórter da Globo interrompe ao vivo e corre para bunker durante ataque em Israel. 15 jun. 2025.
3. ALVES, Rubem. O que é Religião. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 23.
4. Wikipedia. "Guerra Irã-Israel".
5. Agência Brasil. "Derrubar Irã busca deter China e projetar Israel, dizem analistas". 1 mar. 2026.
6. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002. p. 355.
7. CNN Brasil. "EUA x Irã: veja principais acontecimentos das últimas horas". 1 mar. 2026.
8. CNN Brasil. "Saiba os motivos que levaram os EUA e Israel a atacar o Irã". 28 fev. 2026.
9. Agência Brasil. Entenda os desdobramentos do ataque dos EUA e Israel contra o Irã. 28 fev. 2026.
10. ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 17-19.
Referências
ALVES, Rubem. O que é Religião. São Paulo: Brasiliense, 1981.
CARVALHO, José Jorge de. Inclusão Étnica e Racial no Brasil. São Paulo: Attar Editorial, 2005.
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
SAID, Edward. Orientalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Inconstância da Alma Selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
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