Ensaio: A Crise Docente | Drd. Lopes de Almeida

A Condição Docente na Lógica da Mercadoria

Drd. Cídio Lopes de Almeida

A questão da docência no Brasil contemporâneo é profunda e exige uma análise paciente para que as conexões aqui propostas revelem a marginalização do ensinar sob a égide do capital. Atualmente, no ecossistema escolar, seja ele público ou privado, observa-se uma hierarquização utilitarista do conhecimento. Ao identificarmos uma criança com aptidões em matemática, o discurso imediato é o de direcioná-la à engenharia, à economia ou à tecnologia da informação.

Entretanto, o sistema pune o incentivo à carreira docente. Em instituições privadas, o encorajamento para que um aluno de alto desempenho torne-se professor é visto como um erro estratégico. A situação agrava-se no campo da Filosofia. Quando um docente identifica vocação filosófica em um estudante, a reação das famílias tende a ser de confronto. O professor, este profissional do abstrato, é colocado em uma posição de julgamento perante os burocratas da educação e os pais, sendo frequentemente estigmatizado como uma figura subversiva.

Neste cenário, o docente é questionado não sobre a profundidade do conhecimento, mas sobre a utilidade pragmática de sua disciplina. A consequência para este profissional é o descarte: a demissão e o consequente ostracismo nas redes privadas, restando-lhe apenas as fileiras precarizadas do ensino estatal. Sob o domínio do modelo de consumo e entretenimento, a função do professor torna-se uma chaga social em processo de extirpação simbólica.

A lógica formal aristotélica, aquela iniciada pelo mestre de Alexandre, o Grande, não encontra ressonância no capitalismo contemporâneo. O capital nutre-se de outras lógicas, talvez mais próximas da paraconsistência de Newton da Costa. O fundamento da modernidade é a virilidade do domínio sobre a natureza, na qual o ato de conhecer é sinônimo de poder apenas se resultar em propriedade e ostentação. Neste paradigma, ser professor é visto como uma forma de emasculação simbólica, ou seja, uma existência desprovida da virilidade do mercado.

Conforme a alegoria cinematográfica de Matrix, a função docente já foi desligada por dentro na estrutura ideológica. Os que ainda restam em sala de aula apenas aguardam o colapso final de uma função que o sistema já não reconhece como vital. A construção da inutilidade de certas categorias sociais é um processo lento e naturalizado, o qual culmina na aceitação da própria exclusão, como se observa hoje na precarização das escolas de periferia e no abandono das estruturas de ensino.

Nota Editorial: O presente texto foi submetido a um processo de reedição em dezembro de 2025. As intervenções concentraram-se na atualização gramatical e em ajustes estilísticos para elevar o rigor terminológico. Optou-se pela supressão de analogias históricas presentes na versão preliminar, visando uma articulação teórica mais precisa.
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