Sentido histórico das civilizações clássicas

Sentido histórico das civilizações clássicas

RESENHA

 

SILVA, Agostinho da. Sentido histórico das civilizações clássicas. 1929. Tese (Doutoramento) – Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 1929, [pdf].

 

Cídio Lopes de Almeida

[sem revisão por pares]

 

O trabalho doutoral resenhado confronta a alegação de Oswald Spengler de que as civilizações greco-latinas careciam de um sentido histórico em comparação com os egípcios. O texto argumenta, através da análise de mitos, história, arte e ciência, que os gregos e romanos possuíam uma consciência do passado e do futuro, refutando as ideias de Spengler. A discussão explora a interpretação de lendas, o desenvolvimento da historiografia, as escolhas de materiais artísticos e os avanços científicos dessas culturas, apresentando evidências que contradizem a visão de um anistoricismo [falta de sentido histórico] greco-romano. Em contraste, o texto também aponta a presença de elementos míticos e imprecisões históricas no Egito antigo, relativizando a suposta superioridade egípcia no sentido histórico.

 

O Sentido Histórico nas Sociedades Clássicas, tese de doutoramento de Agostinho da Silva

O trabalho doutoral em tela empreende uma detalhada refutação da premissa spengleriana, tal como articulada em “A Decadência do Ocidente”, que atribui à civilização greco-latina uma condição de anistoricismo [a-histórico] fundamental, marcada pela suposta indiferença ao legado do passado e às projeções do futuro, com uma exclusiva imersão no “presente puro”. Contrariando esta visão influente, o autor do texto se dedica a evidenciar a profunda consciência histórica inerente às sociedades grega e romana, argumentando que esta percepção temporal era até mais acentuada do que a manifestada pela civilização egípcia.

A análise desconstroi a metodologia de Spengler, apontando para a fragilidade de suas alegações, disseminadas com eloquência, mas carentes de rigor factual. O autor critica a manipulação seletiva de eventos históricos, a desconsideração da cronologia e da crítica de fontes, e a tendência a generalizações precipitadas a partir de casos isolados. Em vez da alegada ausência de sentido histórico, o texto demonstra como os greco-romanos preservavam e interpretavam o passado através de diversas manifestações culturais e práticas sociais.

No que concerne aos mitos e lendas, o trabalho propõe que estas narrativas não representavam um apagamento da história, mas sim um mecanismo de conservação da memória coletiva em sociedades pré-alfabetizadas. O exemplo da Guerra de Troia ilustra como descobertas arqueológicas posteriores vieram a corroborar um substrato histórico por trás da narrativa épica. A análise da manipulação genealógica em textos como os de Eurípides realça a importância da crítica para discernir as motivações por trás das tradições lendárias. Ademais, a presença de narrativas míticas na própria história do Egito questiona a dicotomia estabelecida por Spengler entre o suposto anistoricismo greco-romano e o profundo sentido histórico egípcio.    

A história constitucional de Esparta e as origens de Roma são apresentadas não como meras invenções, mas como temas de debate e interpretação política dentro das próprias sociedades clássicas. As dificuldades em estabelecer uma cronologia precisa para os primórdios de Roma são atribuídas à perda de documentação e a posteriores interpolações com objetivos de afirmação social, mas não à inexistência de um núcleo histórico verídico. A atuação de analistas romanos que aplicavam princípios de crítica textual é igualmente destacada.  

A concepção greco-romana do passado e do futuro é igualmente examinada, refutando a ideia de um rápido esquecimento dos seus deuses. A classificação varroniana dos dii certi e dii incerti é reinterpretada não como um reflexo do oblívio, mas como uma distinção teológica entre divindades ancestrais e aquelas elevadas ao panteão posteriormente. A continuidade de cultos tradicionais romanos, atestada por achados arqueológicos, contesta a noção de uma substituição completa pelos deuses helênicos.

O alegado desprezo pelo estudo de monumentos e pela prática da arqueologia é desmentido pela menção ao uso de evidências materiais por historiadores como Tucídides e pelo surgimento de uma tradição arqueológica na Grécia, com a realização de escavações e a produção de estudos específicos sobre vestígios do passado.

No domínio da astronomia, o texto demonstra o ativo engajamento dos gregos com a observação celeste e o desenvolvimento de teorias complexas sobre o universo, desde os primeiros filósofos jônicos até as elaborações de Ptolomeu. A controversa lei de eisangelia é contextualizada como uma reação a interpretações filosóficas consideradas impiedosas, e não como uma rejeição ao estudo dos céus em si. 

A análise das artes plásticas contradiz a visão de uma predileção exclusiva por materiais efêmeros. A arquitetura egípcia utilizava uma variedade de materiais, incluindo a argila e a madeira, enquanto os gregos evoluíram da madeira para a pedra, culminando na valorização do mármore e do bronze como materiais duradouros para a expressão artística. A presença e a importância do retrato na escultura greco-romana, com sua busca pela representação individualizada, também desmentem as alegações de Spengler.       A preferência por temas míticos no drama antigo é explicada por suas raízes religiosas e pelo interesse público nos relatos sobre deuses e herois. Contudo, o surgimento de peças com temática histórica em momentos cruciais, bem como a existência da fábula praetexta romana, evidenciam um interesse pelo passado também no teatro.

A comparação entre os sistemas administrativos e as obras públicas das civilizações clássicas questiona a ideia de uma superioridade egípcia em termos de preocupação com o futuro. A realização de extensas redes de estradas, aquedutos, templos e outros edifícios públicos na Grécia e em Roma atesta uma consciência das necessidades presentes e futuras das suas sociedades.

Finalmente, a análise das práticas religiosas e funerárias rebate a noção de um esquecimento dos deuses romanos ancestrais e de uma predominância da cremação como símbolo de desprezo pelo corpo. A inumação é apresentada como o rito funerário mais antigo e comum tanto na Grécia quanto em Roma, enquanto a mumificação egípcia era restrita a uma elite.

Em derradeira análise, o estudo conclui que a tese de Spengler sobre a ausência de sentido histórico nas civilizações clássicas é infundada, apresentando evidências em múltiplos domínios da cultura e da história greco-romana que demonstram uma sofisticada e ativa relação com o passado e uma consideração pelo futuro, invalidando assim a noção de um mero foco no “presente puro”.

P.s.: A imagem que ilustra o post: George Agostinho Batista da Silva – Porto 1906 – Lisboa 1994. E está no endereço eletrônico: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgl8mE-S8NLld0IG-j_EVdJUlLZzGZO2J1cc19KiNcyZYVImuloCXO6yXoPi7pI9BmXqHxzItCvh9qBmKgwzMFwCkxrHkMC3i3mPqZEjBewf68YXr464F-n3K4frXVDbTGZtYGjWnfDmdmk/s400/Perfil+de+Agostinho+da+Silva.jpg 


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