Você acredita em Papai Noel?

Ensaio Reflexivo

ALMEIDA, Cídio Lopes. Você acredita em Papai Noel? Um Embate entre o Sagrado e o Profano na França do Pós-Guerra. São Paulo: AMF3 Escola de Filosofia, 2025.

VOCÊ ACREDITA EM PAPAI NOEL?

Um Embate entre o Sagrado e o Profano na França do Pós-Guerra

Introdução: O Contexto da Invasão Cultural

A querela histórica envolvendo a figura do Papai Noel, a propaganda da Coca-Cola e a Igreja Católica na França de 1951 não deve ser reduzida a uma mera disputa de marketing versus religião. Trata-se de um episódio sintomático da tensão cultural do pós-guerra, momento em que a Europa, via Plano Marshall, recebia não apenas auxílio econômico, mas também a exportação do "American Way of Life". Embora a cor vermelha das vestes de São Nicolau antecede a Coca-Cola, foi a massificação da imagem criada pelo ilustrador Haddon Sundblom para a multinacional, a partir de 1931, que cristalizou a versão profana e comercial do "Père Noël". Na França do início da década de 1950, essa figura passou a ser vista pelo clero não como uma fantasia inocente, mas como um vetor de paganização que ameaçava o sentido teológico da Natividade.

O Incidente de 1951: O Autodafé de Dijon

Embora a resistência clerical fosse generalizada em toda a França, com vozes influentes na hierarquia eclesiástica de Paris e Toulouse condenando o materialismo da data, o clímax desse conflito não ocorreu na capital, mas em Dijon. No dia 23 de dezembro de 1951, em um ato de grande simbolismo, uma efígie do Papai Noel foi enforcada nas grades da Catedral de Dijon e queimada publicamente no adro da igreja, diante de centenas de crianças das patronagens católicas. O ato, sancionado pelo clero local, visava "exorcizar" o intruso pagão que, segundo a Igreja, usurpava o lugar do Cristo. O gesto gerou comoção nacional e uma resposta imediata da prefeitura (de viés republicano e laico), que fez o Papai Noel "ressuscitar" no teto do Hotel de Ville na mesma noite, simbolizando a vitória do rito secular sobre o dogma religioso.

Análise Reflexiva: A Leitura de Claude Lévi-Strauss

O evento de Dijon motivou o antropólogo Claude Lévi-Strauss a escrever um de seus ensaios mais brilhantes, Le Père Noël supplicié, publicado originalmente na revista Les Temps Modernes em 1952. Lévi-Strauss recusa a explicação simplista de que o Papai Noel seria apenas um produto comercial imposto pelos Estados Unidos. Para o autor, a rápida adoção do mito pela sociedade francesa indicava que ele preenchia uma função estrutural vazia. O Papai Noel atua como uma divindade de uma "faixa etária", responsável por sancionar a distinção entre crianças (os não iniciados) e adultos (os iniciados). O presente não é apenas mercadoria, mas um tributo pago pelos vivos (adultos) aos mortos (simbolizados pelas crianças e suas exigências), garantindo a continuidade da ordem social. A Igreja, ao atacar o Papai Noel, percebia corretamente que estava diante de um ritual concorrente, cuja potência mítica residia justamente em sua capacidade de sincretizar o sagrado arcaico com o consumo moderno.

A ser pensado

A tentativa da Igreja de frear a ascensão do Papai Noel "da Coca-Cola" falhou, pois subestimou a função antropológica do rito de troca de presentes na sociedade contemporânea. O Papai Noel venceu não apenas pela força do capital, mas porque se estabeleceu como o regente de um novo sagrado, focado na celebração da infância e na vitalidade econômica, em detrimento da liturgia estrita da Encarnação. O episódio de 1951 permanece como um estudo de caso privilegiado sobre como mitos antigos são reconfigurados pela modernidade industrial.

E você, o que lhe vem à mente sobre natal e papai noel? Estaria você sendo cristão, particularmente Católico Apostólico Romano, ou paganista? rendendo tributo ao deus capitalista?

Referências Bibliográficas

LÉVI-STRAUSS, Claude. Le Père Noël supplicié. Paris: Éditions du Seuil, 2016. (Originalmente publicado em Les Temps Modernes, n. 77, 1952).

PERROT, Martyne. Ethnologie de Noël: une fête paradoxale. Paris: Grasset, 2000.

PERROT, Martyne. Le Cadeau de Noël: histoire d'une invention. Paris: Autrement, 2013.

Drd. Cídio Lopes de Almeida

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