O Império Ataca e o Tio do Zap sofre Ataque
O título é provocativo, mas visa orbitar uma questão desenvolvida em outras duas resenhas de opinião, nas quais se colocava em tela o problema da manufatura simbólica operacionalizada por uma cultura de senso comum sobre temas que pretendem definir a totalidade da realidade. Vale, nesta abertura, registrar que minha questão não reside no desdém por um tipo de conhecimento partilhado no espaço público; a crítica dirige-se ao fato de esse saber ter se tornado simplório, raso, vulgar e soberbo, sendo incapaz de perceber seus próprios limites. Um saber geral, compartilhado na esfera da cidadania, não deveria ser confundido com o que é simplificado, simplista ou superficial. A crítica reside justamente nessa dupla relação, o saber geral tornou-se raso e brutal, bem como não reconhece os seus próprios limites.
A ideia é que existem meios tecnológicos que nos permitem determinados tipos de manufatura simbólica e de distribuição. É inequívoco que, se o rádio permitiu uma modalidade e a televisão outra, a internet e o zap parecem facilitar que narrativas e símbolos particulares se alastrem como água morro abaixo ou fogo morro acima. Traz-se à baila que a própria disposição técnica de distribuição interfere na quantidade e na qualidade dessa expressiva ocupação das pessoas em nossos dias; indivíduos que, não sendo especialistas propriamente, ocupam-se de discorrer sobre temas dessa ou daquela especialidade. Atualmente, esses agentes possuem o poder de ecoar, replicar e autoproduzir o tipo de narrativa que aqui submetemos à crítica.
Destacar la oposição entre o senso comum e a ação profissional não ocorre no sentido de interditar o senso comum, a cidadania ou o espaço público. A ideia de problematizar, ao estilo do Sócrates da Grécia Antiga, reside no fato de que certas perguntas são evidentes para um especialista, mas permanecem invisíveis para essa massa que se dispõe a produzir e a compartilhar narrativas de forma indiscriminada.
O delírio ou tema da vez de não é mais a Rússia e a Ucrânia, muito menos a questão da Palestina; agora o foco é a Venezuela. As redes estão congestionadas de opiniões, todas com pretensão de discorrer sobre um suposto real oculto que o labor do Tio do Zap pretende revelar. Acredita-se que, com essa verdade epistolar, teríamos uma nova chave para proceder sobre o real, descortinado por tais análises. É razoável considerarmos que esse não especialista, ao se colocar a manufaturar uma simbólica pseudoespecializada, nada tem a dizer sobre guerras que não figuram no radar das mídias corporativas, como o conflito na Etiópia. Afinal, o que se sabe sobre o drama daqueles que habitam o Saara Ocidental? Ademais, isso permite-nos avançar para perceber o ecosistema comunicativo popular como caixa de ressonância de pautas alheias a si.
Em todos os casos, não é difícil notar a existência de um posicionamento definido. Podemos afirmar que há o Tio do Zap de direita, caracterizado por ser mais ativo, nervoso e um paladino da moralidade, posicionando-se contra “tudo isso aí”. Contudo, nota-se também uma outra forma de Tio do Zap, que poderia ser enfeixado sob a sigla da esquerda. Evitaremos aqui, inicialmente, os termos clichês por meio dos quais, no geral, os dois grupos se agridem mutuamente.
O ponto comum desta resenha é que ambos os polos produzem um tipo de vínculo com uma realidade. A questão é que, rememorando o Mundo das Ideias de Platão, não é raro vincularmo-nos a fantasmas que se projetam à nossa frente, sem que quase nunca percebamos tratar-se de uma “ideação” ou de uma “projeção ideativa”. É como se inventássemos interlocutores e fingíssemos, sem notar o fingimento, que estamos em uma dialética; isto é, em plena interlocução entre um eu e um outro, uma outra consciência, para ser mais preciso. Seria incômodo reconhecer que operamos como as crianças que brincam de falar com duas pessoas, quando, em verdade, elas mesmas interpretam o papel de uma e de outra.
Se a deposição midiática e truncada de um presidente de um país soberano é o tema da pauta recente, o outro lado da torcida desse embate de realidades teve um longo e penoso caminho de desilusão. Entre as tentativas de banimento pela força da democracia, vulgo golpe de Estado de 08 de janeiro 2023, e as consequentes prisões, julgamentos e condenações, em ambos os casos temos um processo em que toda a idealidade que o partidário projetava sobre narrativas de realidades e de pessoas foi fustigada. Em ambos os lados, podemos agora observar como elaboram a frustração; como cada torcida engole seco e reajusta a rota das suas projeções ideais.
Essa percepção de que as projeções eram majoritariamente fantasias, destituídas de um retorno adequado, revela o momento em que percebemos que certas ideias e ideologias com as quais nos identificamos e que tomamos como algo próprio não mais coincidem com a realidade. Esse instante, em que se nota o patinar do pensamento, constitui um objeto mais palpável para uma análise sobre a dinâmica de sentido que constitui a realidade humana.
Dito de outro modo, podemos facilmente construir a hipótese de que a necessidade humana de olhar para a realidade imediata e construir um conjunto de informações, visando identificar se algum perigo se avizinha ou se há água e alimento, constitui uma habilidade tão inerente à nossa condição que a definimos como antropológica. Daí compreendermos, em parte, que a demanda pela produção de narrativas não seja algo superficial, mas sim uma necessidade vital para a existência humana. Portanto, um direito da cidadania. A questão em apreciação, portanto, reside no rumo que essa narrativização toma dentro da semiosfera que denominei como Tio do Zap e que em certa medida desvirtua o direito da informação como sustento de uma vida cidadã saudável.
A justeza das ideias em relação àquilo que pretendem representar e comunicar passa, portanto, pelo primeiro degrau do pensamento que denominamos de crítico reflexivo. É preciso dar-se conta da questão fundamental em torno da representação, ou seja, o problema inerente a essa nossa habilidade. Frequentemente, não refletimos sobre o fato de que, apesar de vermos um objeto fora de nós, tal informação está sendo processada dentro do cérebro. Este possui a capacidade quase mágica de simular a presença do objeto externo em si mesmo. Todavia, no limite, tudo ocorre internamente, e esse é o ponto cego do pensamento.
Será por esse motivo que a ideia de uma paz da alma era o que os antigos gregos, em suas escolas filosóficas, buscavam sob o conceito de ataraxia. Essa paz interior da alma implicava, como retoma Pierre Hadot contemporaneamente, uma conversão do olhar; a busca primordial do exercitante da filosofia, naquele contexto, consistia em voltar-se para si. Soaria sempre estranho, ao menos naqueles círculos escolares, o ato de projetar-se para fora de si sem antes conhecer o que habita em si mesmo.
Assim, no calor dos fenômenos da geopolítica e da realidade em geral, observar como humanos que não se dedicam ao autoconhecimento prometem desvelar realidades ocultas alhures. Eles oferecem chaves de leitura e descrições acuradas sobre os processos dinâmicos constitutivos desses fenômenos sem conhecerem sequer a literatura sobre a conversão do olhar para si. Todavia, tal observação constitui um objeto lícito e estratégico destas meditações que temos realizado em torno da cultura franca, do senso comum e da figura do Tio do Zap.
Observa-se, particularmente, como cada bloco ideológico elabora o constante desencontro entre si, as fantasias produzidas internamente e a realidade que projeta a partir de si mesmo. Reelaborar consiste no modo como se ajusta aquilo que falhou. Podemos, nesse ponto, notar a existência de duas saídas, ou duas linhas gerais identificáveis: uma é a elaboração ressentida, na qual o ressentimento passa a marcar, de fio a pavio, as novas elaborações pós frustrações; o outro bloco poderá ser examinado sob a perspectiva da sublimação.
Sobre o ressentimento, adiantamos algumas linhas. Ao ser fustigada a pretensão de realidade, nos termos da psicanálise, ocorre a impossibilidade do gozo decorrente da castração em que se encontra o psiquismo frustrado em suas intenções projetivas. O indivíduo, na dinâmica de sua psiquê, estagna e fixa-se a uma dívida simbólica impagável. Ele não se retira dessa situação; ao contrário, retroalimenta o sofrimento da falta e da ausência para evitar lidar com o fracasso da projeção não realizada, a qual ensejava uma realização libidinal que acabou por ser decapitada. Alimenta-se circuitos narrativos que carrega em si essa dor, que é traduzida no ódio, na raiva.
Na outra frente de solução, vale discorrer também sobre a sublimação, o que exigirá, noutro momento, recorrer à obra Luto e Melancolia (1917) de Freud. Nesse contexto, ao ser frustrada, a via não ressentida opta por deslocar aquela intenção de gozo, aquela intencionalidade projetada, para outro objeto; a isso se denomina sublimação. Ao perceber que dialetizava com um fantasma, ou que o objeto seria algo interditado socialmente, o sujeito não ignora que a intenção falhou. Assume-se o fracasso, embora isso não seja fácil, pois, no geral, apegamo-nos às nossas projeções. A sublimação não retém energia psíquica no plano falhado; ela direciona essa força acumulada no corpo para outras esferas, particularmente para a criação de novas realidades por meio das artes, da escrita poética, da escrita em geral e das ciências.
Esse trabalho de notar que a empreitada secretamente alimentada no cotidiano falhou constitui o próprio trabalho do luto. Trata-se de reconhecer que sentimos uma ausência e que ela gera uma dor específica, a dor da alma. Como se diz nos circuitos freudianos, é preciso matar o morto e deixá-lo desaparecer. Nesse quadro, não posso deixar de partilhar uma imagem que me ocorre na leitura de Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche. Logo na abertura da narrativa, o sábio Zaratustra, que acabara de retornar de seu retiro sabático nas montanhas, toma para si um discípulo que era um defunto, um homem recém-morto devido a uma queda. Demorará para que ele perceba que o seu aprendiz era, em verdade, um morto.
Ainda na simbólica freudiana, no texto O Humor (Der Humor, 1927), podemos pensar que uma instância de nós, denominada nessa economia por superego, permite-nos rir de nós mesmos. Trata-se de transformar o trágico, esse fim indesejado que nos conduziu ao nada, em comédia e em objeto de riso diante de nosso próprio limite. Logra-se, assim, o prazer ou a descarga daquela energia acumulada e não realizada, convertendo-a em satisfação por meio do riso e da piada. Em nota marginal, não devemos esquecer que nas tiranias políticas e econômicas as artes são as mais prejudicadas junto à liberdade, o autoritarismo não tem senso de humor.
Nesse quadro de reflexão sobre como os sujeitos emergem das situações de frustração, apetece-nos outra proposta de saída. Ao projetar ideais sobre o outro, sobre a realidade ou sobre ideologias, esperamos, em última instância, ser correspondidos e acolhidos. Nesses pontos cegos do pensamento, surge a crença de que esse outro nos deve algo, sem que o sujeito se perceba como artífice dessa dramática. Tal estado, estranho quando analisado à luz da razão, precisa ser contornado. É necessário assumir a responsabilidade por construir fantasmas e amá-los, dedicando energias psíquicas a algo que foi projetado como se fosse alheio. É preciso perceber que, por muito tempo, não havia o Outro; era apenas o eu. Não que os outros não existam, pois são reais e externos a nós, mas, por um processo de produção interna, o sujeito os encobre com suas próprias operações mentais. Sendo otimista, é como se jogássemos um lençol sobre objetos dispostos em uma mesa. Ao encobri-los, passamos a ver apenas suas silhuetas e a crer que todos possuem a cor branca do tecido. É esse mecanismo que precisamos notar, pois ele barra efetivamente o outro. Ao reconhecer isso, compreende-se que o outro nada nos deve; o que resta é o vazio. Encarar esse vazio e seguir para as artes constitui uma solução possível e mais próximo do saudável.
Uma conversão do olhar, pela via do exercício filosófico, é uma proposta honesta de lidarmos com a realidade sem vagarmos por uma vacuidade angustiante e odiosa, como observamos na semiosfera do Tio do Zap da extrema-direita em particular. Não há uma fórmula ou mesmo um real pronto; ele é movediço, assemelhando-se ao que Platão atribui a Heráclito de Éfeso na máxima "tudo flui", ou em grego antigo, panta rhei (πάντα ῥεῖ). Ademais, ainda sob os ecos de Heráclito, no fragmento 123, tem-se que Physis kryptesthai philei (φύσις κρύπTEσθαι φιλεῖ), ou seja, a natureza ama esconder-se. Pierre Hadot propôs uma reflexão rigorosa sobre a história da ciência ocidental, associando que, em mais de dois milênios de conhecimento sistematizado, o esforço humano consistiu em tentar arrancar o véu de Ísis. Esta figura do Egito Antigo personifica a natureza e a própria realidade. Portanto, há uma comunidade humana inteira na busca por esse elemento oculto, o que constitui o motor da miríade infinita de intérpretes da realidade em nossos dias. Todos desejam capturar o que está escondido na realidade compreendida como Physis.
A proposta rascunhada nesta resenha não consiste em um jogar-se no paradoxo de Zenão de Eleia, autor da célebre ideia na qual Aquiles nunca alcançaria a tartaruga numa corrida em que se concedeu a esta alguns metros de vantagem. Essa questão, sendo de ordem da lógica formal, não possui pretensão de laços com a realidade propriamente dita. Contudo, aplicamos essa clássica proposição como metáfora para indicar que, por vezes, a tentativa de análise da realidade tende a fragmentar infinitamente a possibilidade da ação, ao ponto de o sujeito nunca agir. No campo da subjetividade, essa fragmentação assemelha-se ao labirinto do pensamento neurótico obsessivo que, ao buscar esgotar todas as variáveis de uma frustração ou de um evento, acaba por paralisar o indivíduo, impedindo o fluxo e o ato que seriam necessários para a efetiva ressignificação.
O que mais nos apraz para a adequada narrativa de si e da realidade circundante é o exercitar-se filosoficamente. Pela filosofia, transitamos e habitamos a poesia; a proposta é o viver poético, o ser poema conforme preconizado por Agostinho da Silva. Trata-se de constituir uma comunidade de poetas na qual uma dialética criativa possa ser encetada cotidianamente, permitindo que o catapultar-se do vazio ocorra na contemplação dos signos de uma cultura e na memória sígnica de cada subjetividade que nela habita. Nesse ponto, iniciamos outra prosa, que consiste na superação da imposição narrativa do outro que tenta instaurar a pátria alheia via colonialismo cultural, pois, como em Fernando Pessoa, a nossa pátria é a nossa língua. Em definitivo, o Dasein não é capaz desse arrancar-se do vazio sem a mediação da poética e o reconhecimento de sua própria morada linguística.
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