FALA FRANCA EM TEMPOS DE LINCHAMENTO DIGITAL, O CASO DO CAPITÃO DOS TUBARÕES AZUIS E O SILÊNCIO
Em resenha anterior a este periódico, que tenho o hábito de consultar com frequência para acompanhar Cabo Verde, propus a ideia de fala franca, ou parresia, como um exercício filosófico importante1. O tema me é caro e se articula com outros eixos da investigação que desenvolvo atualmente na PUC-Campinas, como pós-doutorando, em torno da Filosofia de Vida. A essa constelação de conceitos somaria ainda outras noções centrais para uma filosofia de vida entendida como prática existencial, a escrita de si (hupomnemata), a epistrophe (conversão do olhar, retorno a si) e a anachoresis (retirada em si mesmo).
Essa referência me serve tanto para ler o momento presente quanto para nele estar. E é a partir dela que avanço para outro tema, de certo modo já contemplado por esse exercício de filosofia de vida. Imbuído desse exercício, começo a dizer que tenho estado com o sentimento de estranhamento diante da ausência de notícia nos periódicos de Cabo Verde sobre a violência sexual atribuída ao capitão de Cabo Verde na Copa, conforme reportagens de veículos como Globo Esporte, onde a informação apareceu originalmente2, Agência Brasil3 e New Zealand Herald6. Esse silêncio foi interrompido justamente por esse periódico, Mindel Insite.
Vivemos tempos de linchamentos públicos nas redes sociais. Toda cautela é fundamental quando uma crônica ou uma resenha articula e imputa um crime a alguém. Lamentavelmente, esse cuidado das redes sociais em geral costuma faltar justamente contra pessoas pobres e marginalizadas, que demandam direitos básicos como moradia e água potável. Basta notar que, nos dois casos ligados ao futebol brasileiro, os de Robinho, já condenado, e Daniel Alves, ainda em tramitação processual, não houve tal cautela, mas sim solidariedade, especialmente no pagamento da fiança deste último8. Adiciono ainda outro caso, que tem como ponto comum a violência sexual contra mulheres e a revitimização de quem a denuncia. O caso Mariana Ferrer é aqui no Brasil um exemplo clássico dessa barbárie, em que até o devido processo legal foi negligenciado, conforme decidiu o Supremo Tribunal Federal, que, além de reconhecer a barbaridade cometida contra a vítima ao longo do processo, determinou sua completa refeitura7.
A parresia, como já dissemos noutro artigo nesse periódico, não ocupa um lugar privilegiado de quem informa a outros supostamente menos informados. A fala franca aqui é partilha honesta, dirigida tanto aos outros quanto a mim mesmo, e à própria cultura de onde falo, também portadora de uma violência de gênero aviltante em todas as suas formas. Os dados do feminicídio no Brasil nos fazem engolir seco; são desconcertantes. A fala franca é, assim, um exercício de filosofia de vida que interroga um tema para verificar o que se pode dizer sobre ele na esfera pública e privada.
Como homem, esse não é um tema aleatório para mim, é constrangedor, pois demanda minha atenção tanto na esfera privada quanto no espaço público; uma conversão do olhar. Não posso me esconder atrás do clichê, isso me diz respeito diretamente. Sou filho de uma mulher, e por isso devo perguntar quais foram as consequências, na minha formação como homem, da figura de um pai que se dizia "bravo", eufemismo para violento e para toda sorte de machismo. Os ecos dessa herança são longevos. Trata-se de um tema de todos nós, e que o exame de si é o primeiro passo para depois pensarmos o coletivo, e a transformação dessa paisagem cultural é dever de todos nós.
Tudo isso para manifestar meu estranhamento diante do silêncio dos jornais de Cabo Verde sobre o caso, sendo este periódico o primeiro a publicar algo a respeito, pelo que registro seu lugar de vanguarda da cultura cabo-verdiana, não só nesse tema, mas em outros.
O meu manifesto em forma de resenha se dá pelo interesse que tenho para com a cultura cabo-verdiana. Como interessado dessa cultura, pela primeira vez ouvi pessoas falarem de Cabo Verde nas ruas do Brasil, particularmente numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. As pessoas descobriram Cabo Verde e se apaixonaram por essa cultura irmã. Esse ganho de aproximação entre as duas culturas se deu, em boa medida, pela via da seleção cabo-verdiana e, em particular, pela ascensão do goleiro Vozinha no imaginário brasileiro, que se tornou nome corrente de norte a sul do país e conquistou mais de dezessete milhões de seguidores no Instagram.
O tema é delicado, contudo, proponho uma consideração. As reportagens do Globo Esporte são responsáveis e documentadas, o trabalho jornalístico aqui não é uma postagem de rede social com perfil duvidoso. Proponho que não se pode desconsiderar essa fonte objetiva nem relegar a informação à esfera do que ainda estaria em apuração, como se fosse algo leviano ou sem nexo. Há responsabilidade jornalística em jogo, não se trata de algo aleatório e sem provas. Diante disso, o silenciamento de partes da imprensa cabo-verdiana, sobre o tema, pode, em termos hipotéticos, dilapidar essa aproximação espontânea entre a cultura dos dois países, gerada pelo futebol. Essa possibilidade entristece quem estuda a cultura cabo-verdiana a partir de seus nexos históricos com a cultura brasileira, pois o que se arrisca perder não é apenas a imagem de um jogador ou de uma seleção, mas um raro momento de identificação popular entre dois povos ligados por história comum.
Para quem acompanha a cultura cabo-verdiana, tem amigos e desenvolve projetos culturais ligados a ela, esta Copa carrega um duplo sentimento, a alegria pelos resultados da seleção e uma angústia profunda diante deste tema em particular, sobretudo pela forma como as autoridades futebolísticas o vêm tratando e o referido silêncio de frações da mídia cabo-verdiana.
Creio ser prudente separar o caso isolado da cultura e do grupo aos quais pertence o jogador, distinção que até certo ponto podemos esperar do público em geral. O silêncio de partes da mídia, contudo, permite que o grande público, cabo-verdianos e brasileiros, construa também outras leituras, entre elas a de uma solidariedade tácita com o crime; responsavelmente documentado pela reportagem original. Leitura que não se sustenta e é injusta e incompatível com os jornais de Cabo Verde, pois para quem acompanha-os, sabe-se que é habitual o registro jornalístico de crimes sexuais no país e os devidos encaminhamentos policiais, sem falar do ambiente democrático para atuação jornalística que Cabo Verde é portador. Esse silêncio cometeria, assim, uma injustiça com esse capital cultural expresso no jornalismo local e seu trabalho fundamental para a democracia.
A questão final é a fala franca, mesmo e sobretudo sobre temas sensíveis. A violência de gênero é entranhada e naturalizada em nossa cultura comum. A nossa pátria comum, que é a nossa rica e polissêmica língua pátria/mátria, nos permite esse exercício alargado na construção de um viver melhor e feliz; que nos permite trabalhar em prol de superar os limites que também nos são comuns.
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