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O assalto da pauta democrática - Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida

O assalto da pauta democrática

Resultado das urnas à parte, o discurso fascista já tomou o debate público no Brasil
Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida

Quando começo esta resenha, não sei qual será o resultado do pleito que se realiza neste domingo, 4 de outubro de 2026, no Brasil. Ouso propor como tema que o resultado não importa, pois vivemos um processo de inflexão dos mecanismos democráticos sem precedentes em nossa democracia. A democracia está perdendo em razão de todo o cenário sociocultural a que chegamos, a ponto de uma pauta fascista ter tomado por completo o debate sobre a coisa pública, ainda que o candidato protofascista chegue em segundo lugar.

Objetivo, portanto, refletir sobre o que denominamos assalto da pauta democrática por um tipo de discurso fascista. O desafio desse debate está em que ele se mistura com uma militância já política, mas se faz necessário para além de uma opção política dentro do campo democrático. Seria possível explicitar que há um assalto à totalidade do debate e que, mesmo que um campo democrático vença, a agenda discursiva foi comprometida pela ascensão de um dos disputantes? Nossa ideia é que a ascensão do polo protofascista como debatedor já constitui uma derrota da democracia. Mesmo que num primeiro momento ele perca determinado pleito, sua admissão no sistema já é uma derrocada do sistema, que será solapado aos poucos até a destruição. Essa ideia se justifica à luz do que ocorreu na ascensão do nazismo a partir dos anos 1920, quando foi por meio da ordem estabelecida que a excrescência histórica do nacional-socialismo se instalou como governo e poder constituído.

Abundam materiais sobre o corte fascista do candidato da extrema-direita no pleito deste domingo. Apesar de tudo ser jogado numa zona do "são os opositores querendo difamar o meu candidato", por variadas vias chegamos à comprovação objetiva de que os fatos indicam uma trajetória de vida política totalmente avessa à democracia, ao Estado e à coisa pública. É flagrante o interesse da mídia e das bigtechs em aplainar o grotesco, em dar-lhe feição admissível. Em primeira tela, associam-no aos candidatos do espectro democrático, que se apegam ao sistema democrático e às regras constitucionais. A tensão em questão é um processo de dissimulação alargado, que inicialmente parece atender aos interesses dessas corporações comunicativas. A primeira fricção e ruptura se dá, portanto, no plano cognitivo, pois se interrompe abertamente o fluxo normal da lógica, da cognição, do pensamento saudável.

O primeiro e amplo composto de provas encontra-se nessa esfera de torção da narrativa, torcida até o esgarçamento. Instalada de modo alargado e persistente à dissimulação, já está derrotada toda discursividade pautada pela lógica formal. Há outra lógica, ao pleno arrepio daquilo que baseia e mantém todo tipo de coesão social. O segundo passo é que esse modelo se amplifica para atender interesses mais imediatos de empresas de mídia, de todo tipo e tamanho, e das ditas "redes sociais". O like, o engajamento, produz dividendos imediatos para esses atores, e o raio de entrega que alcançam na sociedade produz uma dissonância coletiva ainda por estudar. Ao se apontar a última notícia de crime do candidato fascista, mobiliza-se de imediato o filho de outro do campo democrático, e para o cooptado pelo fascis-discurso está tudo resolvido. Não se pensa na face aberrante da proposta fascista. Joga-se por sobre a lógica formal e as provas apuradas, e se julga lograr êxito ao dizer o mesmo de todos os outros.

Não há diálogo, e por isso este é o ponto sem retorno do atual espectro democrático. A dissonância se impõe e pauta o debate. Nesse ponto, puxa o campo democrático para a lama e não o deixa voltar ao campo do Estado. Por mais que se tente conduzir a conversa para um diálogo pautado pela lógica, isso não ocorre. A sobreposição de barbaridade sobre barbaridade entala a democracia, e aí temos a vitória fascista. Mesmo que perca este pleito nacional, ela ganhou, pois, esse jeito de ver a vida e de pautar está na arena e não vai sair. Mesmo com a Argentina passando por uma tragédia de múltiplas dimensões, não se consegue perceber isso; a vida segue, e se diz que está tudo bem. Temos então o monstro solto, sem ser constrangido. Resta uma questão de tempo para que o trágico, em proporções colossais, se efetive. Foi assim com o nazismo, que exigiu uma guerra geral e milhões de mortes para que se detivesse o abjeto.

Não precisamos ser magos para ver que essas condições estão postas hoje e que são vitoriosas em variadas frentes. Um partido nazista na própria Alemanha é mais um sintoma disso. Os próprios processos nos Estados Unidos, em que um presidente desmonta todas as instituições da república, não terão volta. Por mais estável e forte que seja a democracia por lá, os efeitos desta vez colocarão em xeque a capacidade de resistir e o antídoto contra o fascismo naquele país. Não haverá reação no interior dos Estados Unidos contra o fascismo de Trump.

Quem promove esse discurso já está faturando com isso. Há uma demanda capitalista com ganhos imediatos. As bigtechs ganham muito dinheiro com os chamados engajamentos, e as mídias tradicionais, ao apoiarem tais discursividades, também miram ganhos imediatos. Não se trata de algo hipotético para elas, pois o ganho se dá no agora e dispensa promessas de futuro. Por isso mesmo, dentro da legalidade, dão toda vazão a tal discurso e atuam para retirar da cena os oponentes a esses interesses. Dão voz ao grotesco e disseminam tudo contra os outros, pois estes representam riscos a esses ganhos. Domina-se a descrição do outro, satanizan-no, impõem-lhe atributos negativos, como o de comunista, tudo para não permitir sua ascensão e sua manutenção. Não pensam que, ao fim, a destruição do sistema democrático destruirá a eles próprios, pois essa possibilidade é hipotética e de futuro. Fala mais forte o ganho de hoje, que é real, e pela força desse ganho já consumado esquecem ou perdem toda capacidade de defender algo ideal, futuro.

O grotesco conta com aqueles que já estão ganhando. Em nome desse ganho já realizado, não se percebe o grotesco como tal, pois o ganho imediato aplaina as feições do grotesco, e ele se instala na ordem sem receio e sem problema para os que dominam os meios. Esse outro fator também já está instalado e dispensa hipóteses. Assim, é possível que já tenhamos perdido a democracia no Brasil. Seja nesse pleito, seja daqui a 5 anos. Sigamos para o exilio.

Prof. Dr. Cídio Lopes de Almeida

Pensamento crítico, uma potente subversão

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