O Antropomorfismo Político e a Miséria do Senso Comum: Uma Reflexão sobre o “Tio do Zap”

Cídio Lopes de Almeida*

A circulação de narrativas que pretendem explicar a complexidade do real a partir da vida privada não constitui um fenômeno inédito para as Ciências Sociais. Émile Durkheim [2007], ao estabelecer o método sociológico, já alertava para a resistência que os valores da cultura geral e as pré-noções impõem ao esforço científico na busca pela verdade. No cenário contemporâneo, essa força do senso comum projeta sobre a realidade política um conjunto de ideias que, embora carentes de rigor, possuem uma eficácia prática devastadora. Tais narrativas motivam o engajamento em campos ideológicos que sustentam, por meio do voto e da anuência, grupos que ocupam o poder de fato.

Políticos habilidosos, operando através de novas tecnologias, capturam essas ideologias fundamentadas em um tosco antropomorfismo. A compreensão das dinâmicas do real é condicionada por esse olhar limitado, que é constantemente visitado e realimentado. Torna-se complexo precisar onde se inicia o cultivo de tais pensamentos, que acabam por servir a interesses privados de quem se apossa do poder constituído. A gênese dessas ideias pode ser rastreada em centros de produção específicos, como as think tanks estadunidenses, conforme documentado pelo jornalista Bob Fernandes em suas reportagens sobre a atuação de agências estrangeiras [2025]. Da mesma forma, organizações como o Todos pela Educação aproximam-se dos centros de determinação do currículo nacional, moldando ideologias distribuídas pelo sistema formal de ensino sob uma ótica mercantil [2025].

Ao analisar a estrutura dessas narrativas, verifica-se que elas dialogam prioritariamente com o afeto da raiva ou do ódio. O objetivo é sempre a construção de um ator social execrável, partindo de um exemplo particular para uma universalização precária. Diante de um caso pontual, abdica-se das perguntas elementares para se atingir uma conclusão moralizante: o outro é intrinsecamente mau ou inferior. Se anteriormente tais discursos ficavam restritos ao âmbito privado, as redes sociais conferiram a eles uma escala global. O indivíduo contemporâneo consome e produz simultaneamente essa desinformação, alimentando um ciclo de retroalimentação digital.

Em diálogo com reflexões anteriores sobre a gênese do autoritarismo no Brasil [ALMEIDA, 2021], sustenta-se a hipótese de que a ausência de disciplinas fundamentais no currículo escolar, substituídas por componentes alinhados à ideologia neocapitalista, fragiliza a formação cidadã. O “Tio do Zap”, figura icônica da cultura popular brasileira, personifica o fracasso dessa formação. Ser cidadão exige a posse de informações necessárias para a vida coletiva, o que inclui a compreensão de que o Estado, por ser o único ente presente na totalidade do território, difere radicalmente do indivíduo ou da empresa privada.

É uma aberração do pensamento tomar a economia familiar como métrica para a gestão do Estado. A ideologia neocapitalista promove um emburrecimento planejado ao difundir a ideia de que o Estado não pode gastar mais do que arrecada, ignorando que sua natureza e finalidade são distintas da natureza privada. O Estado não é uma empresa; possui um poder e uma função social que não se confundem com o faturamento de corporações. Essa marca de falsidade precisa ser demonstrada e desmontada, sem que isso implique o desejo de um Estado pilhado pela corrupção ou pelas Dívidas Públicas [RICDP, 2025].

Esse fenômeno, embora analisado aqui sob a lente da conjuntura brasileira, pode ser percebido ou ponto de debate sobre todo o espaço da Lusofonia. Para o leitor em Cabo Verde, país que se ergue como um farol de estabilidade democrática, a reflexão é de suma importância: a importação acrítica dessas narrativas antropomórficas coloca em risco a autonomia do debate público. O desafio da política contemporânea, do Brasil às ilhas de Cabo Verde, reside em proteger a esfera do comum contra a simplificação grosseira de um certo tipo de senso comum. A construção de uma cidadania lusófona exige, fundamentalmente, a compreensão de que a res publica não pode ser gerida sob as paixões belicosas, acossada pelo pavor da finitude da existência, do ambiente digital, mas sob o rigor da responsabilidade histórica e institucional.

A dedicação diária do “Tio do Zap” em proferir aberrações sobre a realidade só encontra eco porque atende a interesses capitalistas efetivos; esta é a hipótese que mantemos em tela. Ele atua como um ventríloquo de forças maiores, acreditando possuir protagonismo em seu pessimismo crônico. É urgente introduzir a consciência dos limites do pensar como estratégia para refrear esse hábito mórbido. Deve-se resgatar a humildade diante do desconhecido, pois não dominamos a totalidade dos temas que nos cercam, ainda que sejamos beneficiados por saberes diversos. A título de exemplo, assim como utilizamos medicamentos vitais sem conhecer plenamente seus efeitos farmacológicos, na esfera da vida social protegida pelo Estado Democrático de Direito também usufruímos de uma série de garantias cujos meandros desconhecemos. A saída não reside na redução da complexidade social a uma métrica da vida privada estendida à totalidade do real. O problema não é o não saber, mas a incapacidade de notar os limites do próprio conhecimento. Diante do desconhecimento, o imperativo ético é o silêncio, acompanhado do compromisso honesto com a busca pelo saber.

Ademais, para superar o cultivo do ódio, propõe-se como pedagogia que o indivíduo se dedique à poesia, às caminhadas ao ar livre e ao exercício da alteridade na doação do seu tempo a quem habita condições precárias. São atividades que o permitem reencontrar a dimensão trágica da existência e, fundamentalmente, a arte de viver apesar dela.

*Doutorando em Ciências das Religiões, Faculdade Unida de Vitória, bolsista FAPES.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, C. L. Como explicar o fascismo flagrante do Brasil de hoje? AMF3, São Paulo, 2021. Disponível em: amf3.com.br/como-explicar-o-fascismo-no-brasil-de-hoje.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Tradução de Paulo Neves. 16. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
FERNANDES, Bob. Exclusivo: Documento da USAID revela “responsabilidade compartilhada dos EUA na gestão” da Amazônia. YouTube, 18 nov. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IP2N70snDWs.
REDE INTERNACIONAL DE CÁTEDRAS EM INSTITUIÇÕES PÚBLICAS (RICDP). Home. Disponível em: https://ricdp.org/. Acesso em: 23 dez. 2025.
TODOS PELA EDUCAÇÃO. In: FAIXA LIVRE. Roberto Leher, Daniel Cara e Eblin Farage discutem a mercantilização do ensino. YouTube, 9 dez. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cSt7PXfhuZE.

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