Língua e realidade

Língua e realidade

RESENHA

 

FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. Edição Especial. Organização de Gustavo Bernardo Krause. São Paulo: Annablume, 2010. 224 p. (Coleção Comunicações. Série Biblioteca Flusseriana)

 

[sem revisão por pares]

 

Cídio Lopes de Almeida*

 

Far-se-á uma incursão aos excertos apresentados na obra “Língua e Realidade” do filósofo Vilém Flusser, explorando a sua tese fundamental de que a língua não apenas descreve, mas ativamente cria a realidade. A reedição comemorativa da obra é destacada, juntamente com o seu impacto duradouro e a análise aprofundada da relação intrínseca entre linguagem, pensamento e o mundo que percebemos. Flusser investiga como diferentes línguas estruturam distintas compreensões da realidade, examinando conceitos como tempo, causalidade e potencialidade através de comparações entre o português, alemão, tcheco e inglês. Adicionalmente, os textos abordam a natureza da tradução, a multiplicidade das línguas e a função da poesia e da ciência na formação da nossa experiência da realidade. A obra seminal de Flusser é apresentada como um ponto de partida crucial para a sua posterior exploração da filosofia da comunicação e da imagem.

 

Resenha sobre o livro  “Língua e Realidade” de Vilém Flusser

A obra “Língua e Realidade” de Vilém Flusser, publicada originalmente em português em 1963 e agora em reedição comemorativa pela editora Annablume, representa um marco inaugural no pensamento do filósofo tcheco-brasileiro. Conforme destacado por Gustavo Bernardo no prefácio, este livro é ímpar por constituir a primeira incursão filosófica de Flusser e por sua abordagem inovadora da filosofia da linguagem, radicada tanto na erudição quanto na experiência de um poliglota exilado. A questão central que permeia a obra, levantada por Bernardo, indaga sobre a gênese da poesia se a língua cria a realidade e a poesia cria a língua.

No Capítulo I, intitulado “A Língua É Realidade”, Flusser estabelece sua posição ontológica fundamental: a realidade, tal como a apreendemos, é intrinsecamente ligada à língua. Ele argumenta que vivemos em uma dupla realidade: a das palavras e a dos dados “brutos” que, em última instância, alcançam o intelecto em forma de palavras. Os elementos constituintes do “cosmos da língua” são as palavras, análogas a átomos ou mônadas, apreendidas como símbolos com significado. A multiplicidade de línguas evidencia que não existe uma “realidade extralinguística” ociosa, mas sim realidades relativas criadas por cada língua, cujas categorias moldam o próprio conhecimento. A ciência, nesse contexto, é apresentada como mais uma das línguas, com validade restrita ao seu próprio sistema simbólico. Flusser também aborda a questão da tradução, distinguindo entre a significativa e a léxica, demonstrando as profundas divergências ontológicas entre línguas e a dificuldade de uma correspondência perfeita. Ele explora a busca por “línguas universais” na filosofia e na ciência, como o simbolismo lógico e a matemática, bem como tentativas como o Basic English, apontando para as limitações e a perda de significado inerentes ao processo de abstração ou simplificação extrema. O capítulo conclui reforçando que a investigação da língua e da realidade deve se restringir às línguas flexionais, às quais pertencemos.

O Capítulo II, “A Língua Forma Realidade”, aprofunda a análise da influência da língua na conformação do pensamento e da própria realidade. Flusser inicia discutindo a visão de Wittgenstein sobre a filosofia como resultado dos choques do intelecto contra os limites da língua, criticando sua falta de consideração pela pluralidade linguística. Ele argumenta que os pensamentos filosóficos são inerentemente ligados à língua em que são formulados, adquirindo novos significados em traduções. Através de análises fenomenológicas de verbos e estruturas gramaticais em inglês, português, tcheco e línguas eslavas, Flusser demonstra como cada língua singulariza a experiência do tempo, do ser, da causalidade e da ação/passividade. A investigação da voz ativa e passiva em português e alemão revela diferentes concepções da relação entre sujeito e objeto. A forma intermediária com o verbo “haver” em português e o “es gibt” em alemão ilustram a presença de um sujeito neutro com diferentes relações com os objetos. Flusser critica a aplicação das categorias aristotélicas às línguas modernas, mostrando como conceitos como atividade e passividade são relações dinâmicas entre sujeito e objeto, variáveis entre línguas. A análise de palavras como “ser” e “poder” em diferentes línguas reforça a tese de que conceitos ontológicos fundamentais são dependentes da estrutura linguística. O capítulo se encerra reafirmando que as categorias de realidade e conhecimento são, em essência, categorias da língua.

No Capítulo III, “A Língua Cria Realidade”, Flusser apresenta sua hipótese central de que o caos de potencialidades se organiza e se realiza nas formas das diversas línguas. Ele propõe um modelo dinâmico da língua com diferentes camadas de realização: do balbuciar à conversa fiada, da conversação à poesia e à oração, representando um eixo de projeção e decadência. A conversação é vista como o centro da língua, onde a informação é trocada e estudada pela cibernética. A poesia emerge como uma condensação da conversação, buscando nova língua a partir do “nada” e sendo a fonte da originalidade e de novos pensamentos. A oração, por sua vez, representa a tentativa do intelecto de superar a língua e dissolver-se no indizível, seja através da lógica e da matemática, seja pela via mística. Flusser expande o conceito de língua para além da linguagem verbal, incluindo a música (como linguagem predominantemente auditiva) e as artes plásticas (como linguagem predominantemente pictórica) como extensões da língua. Ele compara a função poética nas línguas flexionais (direcionada à música) e nas línguas isolantes (direcionada à plástica). O surgimento da poesia e da pintura concreta e abstrata é interpretado como uma tentativa de criar uma língua pictórica flexional independente da fala. Flusser também aborda a “poesia da ciência hipotética” e seu impacto no desenvolvimento tecnológico, levantando questões sobre o futuro do intelecto humano. O capítulo conclui que a língua, em seu sentido amplo, abrange todas as formas de pensamento e atividades do intelecto, constituindo a totalidade da civilização e da realidade.

O Capítulo IV, “A Língua Propaga Realidade (História, Natureza, Civilização)”, explora como a língua, em seu movimento, articula a realidade histórica e cultural. Flusser argumenta que a língua, ao se projetar, deixa para trás a civilização como um potencial realizado e superado. Natureza e civilização não são intrinsecamente reais, mas adquirem realidade ao serem introduzidas na conversação. Ele critica a visão estratificada da realidade de Nicolai Hartmann, propondo que a mudança no tipo de linguagem utilizada pelas ciências ao longo de um espectro (do físico ao artístico) reflete a menor ou maior intensidade da ação do intelecto em conversação sobre os fenômenos. Flusser defende uma nova ciência do espírito, despsicologizada e fenomenológica, que estude a realidade como produto histórico da língua se realizando em cada intelecto. O capítulo culmina em uma exaltação da beleza, sabedoria e majestade da língua, cada palavra sendo uma obra de arte que acumula o passado e gera o futuro, servindo como instrumento na busca pelo indizível.

A Conclusão: “A Grande Conversação” (Capítulo V) retoma a proposição central do livro: a língua, entendida como o conjunto dos sistemas de símbolos, é igual à totalidade daquilo que é apreendido e compreendido, ou seja, a totalidade da realidade. Flusser enfatiza que essa proposição se baseia em definições específicas para o escopo da investigação. Ele reflete sobre o caráter tautológico da linguagem quando analisada logicamente e o poder criador da linguagem poética. O autor declara seu propósito de submergir a proposição inicial em um processo de conversação interna para verificar sua fertilidade em provocar novos pensamentos, em detrimento da busca por posições logicamente inatacáveis. A obra se encerra com a imagem dos esforços individuais confluindo para o “grande rio da conversação”, levados pela correnteza da realização em direção ao “oceano do indizível”.

Em suma, “Língua e Realidade” apresenta uma filosofia da linguagem radical e instigante, que desafia as dicotomias tradicionais entre sujeito e objeto, pensamento e linguagem, realidade e representação. Flusser, com sua perspectiva de pensador multilíngue e transcultural, oferece uma visão dinâmica da língua como força criadora e propagadora da realidade em suas múltiplas dimensões. A obra, apesar de sua profundidade e complexidade, convida o leitor a participar da “grande conversação”, reconhecendo o poder e a beleza da palavra em sua incessante busca pelo indizível.

  

* Doutorando em Ciências das Religiões pela Faculdade Unida de Vitória. Membro dos Grupos de Pesquisa Cátedra de Teologia Pública e Ciências das Religiões (FUV) e Identidade e Sociabilidades Religiosas Contemporâneas [Faculdades EST]. E-mail: cidioalmeida@gmail.com . Bolsista FAPES.

Mestre em Filosofia [Faculdade São Bento/SP], Especialização em Arte Educação [PUCMG], Graduado em Filosofia [PUCMG], Teologia [Faculdade Vicentina], Pedagogia [Uninove], Ciências das Religiões [FUV]. Autor do livro Estética de Educação em Nietzsche. 

 

 

 

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