
Vicente Ferreira da Silva
RESENHA
FERREIRA DA SILVA, Vicente. Introdução à Filosofia da Mitologia. Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo, v. 5, n. 20, p. 554-566, out./dez. 1955.
Cídio Lopes de Almeida*
[sem revisão por pares]
Resumo
A “Introdução à Filosofia da Mitologia” de Vicente Ferreira da Silva representa uma ruptura com o subjetivismo e o antropocentrismo filosóficos, propondo um novo objetivismo onde o mundo espelha uma constituição transcendental ligada a um projeto original. A obra argumenta que a compreensão da religião e da mitologia só é possível ao superar o pensamento ancorado na condition humaine, inserindo essa nas forças instituidoras do Ser. O autor introduz a noção de um Ser transcendente como Sugestor e Fascinator, fonte de todas as possibilidades e cuja manifestação primordial se dá na Mitologia, compreendida não como criação humana, mas como a vida prototípico-divina e a abertura de um regime de fascinação. Nesse contexto, o ente, incluindo o ser humano, é visto como sugerido e fascinado pelo Ser, sendo a própria ideia do homem uma sugestão aórgica [não posto pelo homem], ou seja, não posta pela liberdade humana. A verdadeira objetividade reside no reconhecimento desse oferecer transcendental do Ser, exigindo uma superação do hominismo para uma sabedoria do transumano.
Resenha Introdução à Filosofia da Mitologia
A obra representa uma mudança radical na perspectiva filosófica sobre o fenômeno religioso e a mitologia, marcando uma terceira fase no pensamento de Vicente Ferreira da Silva. Há uma crítica profunda ao subjetivismo e ao antropocentrismo das filosofias tradicionais, que são vistas como formas de idealismo que desconhecem a si mesmas.
O mundo não é meramente uma exterioridade em relação ao pensamento humano, mas espelha nossa constituição transcendental e o projeto ao qual pertencemos. No entanto, o autor propõe um novo objetivismo que busca se libertar da imagem efêmera do hominismo. A transcendência do objeto não significa transcendência ao mundo, que é o prius de todo o ente, como revelado por Heidegger.
A compreensão da religião e da mitologia torna-se possível apenas superando o horizonte do cogito subjetivista. As formas míticas florescem sobre as “cinzas” de um pensamento ancorado na condition humaine, que deve ser inserida nas forças instituidoras (weltsetzenden Potenzen) e, ao mesmo tempo, superada. A razão estabeleceu uma esfera inteligível fixa, mas foi o reconhecimento da precariedade histórica dessa figura do espírito que permitiu vindicar um papel transracional para o mito. [a intencionalidade da consciência fenomenológica mostrou-se limitadora].
A verdadeira objetividade não reside nas coisas e formas eidéticas [eidos = imagem, forma] historicamente variáveis, mas num oferecer transcendental de um Dispensator que disponibiliza o cognoscível e desperta o desejo de conhecimento. Conhecer o Dispensator exige ultrapassar a esfera do conhecimento humano, aproximando-se do “saber do não-saber” de Schelling. [Rompendo assim uma semiosfera em que se submerge o indivíduo em sua totalidade de sentido].
Enquanto permanecermos presos a um mundo inteligível fixo, a religião e o mito parecem supérfluos. Ao conquistar uma nova liberdade, percebemos como o disponível do ente oferecido flui das forças instituidoras do mito. A realidade aparentemente inalterável se dilui no contato criador das potências poéticas originais. O exemplo da Lua ilustra como os antigos a percebiam como protagonista de eventos divinos, não como um satélite físico-matemático. Universalizar nossa percepção científica impõe nossa subjetividade a outras épocas.
Heidegger iniciou um novo tipo de pensar, livre em relação ao ente revelado, focando no oferecer enquanto oferecer (Entwurfbereich), a área franqueada ao pensar para o possibilitante das possibilidades. O Ser é experimentado como liberdade superior, transcendente à subjetividade humana, a Fonte de todos os possíveis.
Para receber a graça do Ser, é necessário renunciar às incitações do ente. O Ser é o Sugestor do sugerido, que se manifesta como algo ao qual estamos entregues. As imagens do sugerido não são nossas imagens das coisas, mas as próprias coisas como imagens prototípicas, fluindo da imaginação prototípica do Sugestor. O ente é consignado por um poder transcendente, a Lichtung des Seins [clareira do ser]. A vigência do ente é compreendida como Fascinação.
A aproximação do Ser se dá ao ultrapassar o oferecido do ente, numa experiência do aberto do Ser, que não é mera vacuidade, mas a fonte trópica de todos os comportamentos. A exposição ao ente é acompanhada de uma sintonização emocional (Befindlichkeit). Falar do Ser como força iluminante pode ser enganoso, sendo mais importante a relação da liberdade fundante com o sentido pulsional da realidade. A Fascinação é o ser-tomado pelo revelado enquanto revelado, a essência última do ente descoberto.
O documento originário do Ser manifesta-se na vida prototípico-divina, a Mitologia, que precede a Poesia como revelação da verdade do Ser. Os Deuses encarnam a fulguração imediata do Fascinator e manifestam-se como Fascinação e despertar de paixões. A experiência do divino é o caminho para uma experiência idônea do Ser, que se revela como uma inexaurível Fonte de Atrações, suscitando o ente como configuração fascinada. O Ser é o Sugestor, o Fascinator, cuja manifestação se dá como pólo pulsional erótico. A proximidade do Ser é relacionada à experiência do estranho (Ungeheure), remetendo ao poder incalculável que comanda os mundos.
A compreensão do Ser acompanha a experiência desse Ser como propensão abismal e luta de princípios. O chamado do sagrado rompe com o dado através de epifanias. O Ser é um Poder Passional, não isento e equilibrado, levando a experiências de arrebatamento e sugestão. A destinação do Ser implica um ater-se ao consignado, sendo tomado pelo ente oferecido, o que constitui a essência da Fascinação. A realidade do Ser traduz-se nesse poder mágico-poético, nessa fascinação omnímoda [mágico-poético]. O Ser é um princípio faccioso [partidário] que projeta facciosamente [partidariamente] as tendências do mundo. O que é ameaçado pelo Ser é o ente em sua totalidade, o direito adquirido do já consignado. A atuação nadificante do Ser é o próprio pensamento do Ser, como ir além de todo o ente, uma ruptura mágica do esquecimento.
A mitologia é a abertura de um regime de fascinação, não uma criação humana ou projeção psicológica. Os conteúdos míticos remetem às coisas mesmas, num mundo de presenças reais. Todas as coisas são coisas míticas. A conexão entre mito e rito é íntima, com o arrebatamento cultual sendo o correlato da ação proposta pelo mito. O mito, presença real dos deuses, ergue o cenário cósmico-patético [páthos]. Os deuses vivem a vida das polaridades, e cada figura numinosa corresponde a um ciclo atrativo-projetivo. O modo de ser do divino e do conteúdo mítico é o da sugestão e do orientar-se pulsional. A epifania de Deus suscita paixões e movimentos constantes, com relações conflituosas entre os deuses. Os deuses são essências fascinantes-fascinadas, não entidades pontuais. O divino pode manifestar-se como vida fluida, assumindo diversas formas. O mito remete a uma conexão de fatos extramundanos com subsistência própria, condicionando as possibilidades temporais. O tempo é o tempo de uma dominação divina, o despertar do desejo.
O suscitado pelo Ser é um patrimônio de paixões, a instituição do desejado pelo desejo. O homem não traça a esfera da apetecibilidade, mas é coprojetado no projetar-se do mundo pelo Fascinator. Um mundo mítico é uma matriz de possibilidades transcendente ao gerado por ela. O Imutável da matriz é o em si do Divino, além da consciência humana. Os poderes míticos são independentes da consciência. A verdade do Ser submerge a verdade do ente. O ente humano submerge no princípio fundante do Ser. A perda de vista do ente humano permite compreender sua natureza última. A Gottesnähe hölderliniana atesta a objetividade do mito além do humano. O homem/mulher não é a chave para compreender o Ser. A tradição mítica atesta a superabundância da verdade do Ser. Uma nova valorização da mitologia exige compreender nosso ser a partir das potências míticas. O advento do homem/mulher promana da fonte dispensadora do Ser. A superação do humano põe o homem/mulher entre as alternativas meta-históricas do vir a ser divino. O homem/mulher é obnoxium [preso á] à sua matriz mítica.
A liberdade em relação à matriz hominídea é o acesso especulativo à vida dos deuses. Pensar a verdade do Ser vai além das possibilidades humanas. O mito nos instaura fora de nós, elucidando nossa proveniência. O território humano é reabsorvido na ordem mítica através da Kehre [conversão do pensamento] do pensamento em relação ao Ser. O eu pertence ao ciclo do oferecido pela imaginação transcendental. A descoberta da pleonexia mítica é um emergir da caverna da subjetividade. O pensamento atual é um despertar para o aórgico, o não posto pelo homem. O homem foi lançado na antropogênese por uma destinação do Ser. A negatividade humana (Nichtung) não é uma faculdade própria, mas algo a que ele subjaz. A mitologia representa um campo de realidades que sobrepujam as decisões finitas, existindo independentemente. O mítico e o aórgico abrem o mesmo: o não posto pelo sujeito, projetado pelo Ser. A ideia do homem é uma sugestão aórgica do Ser. A totalidade mítico-aórgica tem mais rumos que o hominídeo. A tarefa teúrgica do pensamento exige superar o hominismo para uma sabedoria do não-humano (Gottesnähe).
* Doutorando em Ciências das Religiões pela Faculdade Unida de Vitória. Mestre em Filosofia pela Faculdade de São Bento SP. Especialista em Arte-educação e Estudos Bíblicos. Graduado em Filosofia, Teologia, Pedagogia e Ciências das Religiões. Membro dos Grupos de Pesquisa Cátedra de Teologia Pública e Ciências das Religiões [FUV] e Identidade e Sociabilidades Religiosas Contemporânea [Faculdades EST]. E-mail: cidioalmeida@gmail.com.br Bolsista pesquisador FAPES.
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