Humanidades e o Tio do Zap:
Reflexões sobre a Práxis das Humanidades e o Cerco do Senso Comum

Cídio Lopes de Almeida*

Ainda sobre o senso comum ou o Tio do Zap e o quanto o tema é resistente ou persistente na esfera profissional daqueles que trabalham no campo de saber enfeixado na sigla Humanidades e Ciências Sociais, rascunho hoje outra reflexão hipotética. O agir profissional desse metiê em particular não consegue se ver livre dessa peleja por dois motivos fundamentais que inauguram sua dificuldade diagnóstica. Primeiro, pelo uso da linguagem corrente para a manufatura simbólica especializada, que é a mesma em circulação franca e compõe a manufatura simbólica do cotidiano. Depois, porque, em última apreciação, o agir profissional desse fazer, sua práxis diferencial, incide não por acaso, mas fundamentalmente, sobre o senso comum como a totalidade das trocas simbólicas das comunidades humanas. Por isso, ele é o objeto e o campo da práxis do especialista em Humanidades.

A manufatura profissional aporta algo justamente nessa dinâmica ou sobre essa dinâmica, estabelecendo o que seria o meio do nosso imbróglio. A proximidade é parte necessária dessa empreitada, mas pode também lhe ser o problema recorrente; não no sentido de problemas formulados pelos cientistas, mas como algo que impossibilita a própria capacidade do fazer dessa profissão segundo sua lógica e seu método científico próprio. A questão é da ordem de um impedimento do funcionamento da epísteme especializada, particularmente privando as condições materiais do formado nesse campo e, com isso, agindo de modo discreto, mas eficaz, na precarização de um saber que tem justamente muito a dizer sobre a totalidade dos fazeres de uma sociedade e dos humanos dentro dela.

Por esses motivos o cientista das humanidades, pensando aqui em englobar a própria ciência social, tem que meter o pé na jaca, para usar uma expressão popular sobre a impossibilidade de contornar algo que sempre gera contradições e tergiversações a qualquer tentativa de equacionar uma reflexão límpida e capaz de capturar, ou ter a pretensão de capturar, o complexo subjacente ao fenômeno da vida social. De posse desse saber, caberia propor algum tipo de práxis profissional que seria a forma pela qual haveria a inserção desse profissional nas dinâmicas do mundo do trabalho. Contudo, isso é ausente por completo do imaginário da coletividade social, do famigerado senso comum. Afinal, e aí fazendo eco à ideologia da época da ditatura empresarial-militar de 1964 a 1985, para que serve Sociologia, História ou Filosofia? Cientista da Religião é quase um unicórnio.

Noutra direção, das ideologias capitalista-burguesas em especial, não será estranha a tentativa de falar em engenharia social para oferecer um tipo de serviço adequado para o controle social sob a ótica da manufatura capitalista, como se a aplicação de uma métrica matemática fosse capaz de capturar, em última instância, o valor e o sentido que movem as pessoas. Isso nos parece longe até mesmo das filosofias de vida que se organizam em torno de uma ideia de matemática teórica tal como podemos encontrar sob a sigla de pitagorismo na Grécia Antiga. Fantasia positivista ou de Auguste Comte, é fato que essa fantasia de controle captura o olhar dos capitalistas ainda hoje. Extirpar o fator humano no saber-poder sobre os humanos subjaz à fantasia do burguês capitalista, o que é óbvio de um ponto de vista da exploração material sobre os trabalhadores e as trabalhadoras.

A questão é que pensar o senso comum faz parte de uma prática profissional e isso também gera implicações noutro campo, fora da epísteme, mas nas condições materiais desse profissional. Ora, se o aparente compartilhamento de práxis entre o profissional e a ação comum do senso comum faz com que tal atividade se dissolva na paisagem simbólica, não se verifica a aplicabilidade do seu saber. O profissional das humanidades padece de uma precarização generalizada ou será reduzido a nichos sociais que mais parecem os jardins de plantas de países europeus, onde se cultivam espécimes raras a título de um jardim botânico; o que, no nosso caso concreto, pode ser observado nas famigeradas Universidades Federais** (algo como 0,0014% proporcional aos 213 milhões de brasileiros)***.

Um dos lugares com maior relevo do seu fazer está na formação dos novos cidadãos no contexto da educação básica, mas aí ele também é menorizado. A matemática é deslocada para o lugar de coisa mais importante, com mais espaço e mais horas-aula para os estudantes, o que implica em tornar as condições de trabalho dos demais professores da Escola Básica algo precário, pelo excesso de alunos, diários e burocracia pedagógica. Alimenta-se a fantasia de que um saber ideal, o matemático, vai resolver o problema da humanidade e dos humanos. Algo que, por excelência, é criado pelo humano e é destituído do mundo da ação e do valor, irá (e essa é também uma lorota que o senso comum compra) fazer o bem para superar todo tipo de mazelas sociais geradas por nós mesmos. Se isso não é um messianismo?

No magistério da educação básica, onde podemos considerar que há 0,45%****, comparado à totalidade dos brasileiros, da força de trabalho das humanidades e ciências sociais e, desse modo, como o lugar de maior relevo para a práxis da área, mesmo ali, além de se ver escanteada pela mitologia da matemática salvífica, ela é totalmente desestimulada pelas condições de trabalho e misturada com a força do valor do senso comum, onde o seu diferencial é apagado, pois de filósofo e louco todo mundo tem um pouco, reza o dito popular. É exemplar dessa tensão e da invasão clandestina de uma epísteme rigorosa os tais OSPB [Organização Social e Políticas Brasileira], EPB [Estudos dos Problemas Brasileiro] e EMC [Educação Moral e Cívica], pseudodisciplinas (ou componentes) inventadas pelo regime autoritário de 1964 a 1985. Ademais, outras hordas de bárbaros que cruzam a fronteira da epistemologia das humanidades podem ser nomeadas pelo assunto do futebol, das novelas e da praga das falsas notícias. E todos os bárbaros agora se acham habilitados à práxis das humanidades enquanto profissão. Todos têm opiniões sobre tudo e nem lhes ocorre que nada sabem. Sócrates seria brutalmente morto novamente, pois com algumas perguntas arrancaria as máscaras dos opinólogos de nossos dias, o que geraria a ira correlata ao desmascaramento dos embustes.

Essa dialética negativa para as humanidades não é, em si, uma questão inerente a ela, mas sim o desfecho de uma lógica de dominação. Não será estranha a ideia de pensarmos que humanos produzem e realizam valores, incluindo o valor monetário e financeiro. Pelo que é parte inerente da dinâmica capitalista, como maneira hegemônica de produção de valor na totalidade de suas modalidades, a construção da ideologia do não-valor acerca dos humanos e das ciências que têm justamente esse humano como referência epistêmica faz muito sentido. Como parte do engenho capitalista, além de elevar a sensação de falta e escassez, a promoção da desvalorização dos humanos funciona como estratégia elementar de pilhar os valores que esses humanos, proletários, produzem.

Finalmente, o técnico das humanidades, pois como profissional ele precisa deter uma especialidade que entrega algo em troca do valor financeiro, precisa ser, antes de tudo, um revolucionário. Na dinâmica ecoada no senso comum e financiada regularmente por frações que se dão muito bem no capitalismo, o seu fazer é nadificado. Sua primeira ação revolucionária é no sentido de repor a si mesmo e aos seus pares o devido valor. A segunda tarefa é nomear e combater os focos da disseminação das ideologias nadificadoras não só do seu fazer, mas da humanidade como um todo. O Tio do Zap, essa ideia arquetípica ou esse modelo tipológico, deve ser nomeado e desestimulado. Combatei-vos, em si, um Tio do Zap que vos habita.

*Doutorando em Ciências das Religiões, Faculdade Unida de Vitória, bolsista FAPES.

Referências documentais

** BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo da Educação Superior 2024: notas estatísticas. Brasília, DF: Inep, 2025.
*** INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estimativas da população. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.
**** BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo Escolar da Educação Básica 2024: notas estatísticas. Brasília, DF: Inep, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/inep. Acesso em: 1 jan. 2026.

Referências teóricas

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva; Discurso sobre o espírito positivo; Discurso sobre o conjunto do positivismo; Catecismo positivista. Tradução de José Arthur Giannotti e Miguel Lemos. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os Pensadores).
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
SAVIANI, Dermeval. A pedagogia no Brasil: história e teoria. Campinas: Autores Associados, 2008.

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