Da Sociabilidade Fraternal ao Objeto de Estudo Acadêmico:

uma Perspectiva Profissional sobre a Maçonaria na AMF3

Drd. Cídio Lopes de Almeida
AMF – Escola de Filosofia

Minha aproximação com a Maçonaria remonta a um período considerável, cuja extensão omito apenas para preservar a discrição sobre minha própria senioridade. Este interesse desenvolveu-se em constante diálogo com minhas formações acadêmicas em Filosofia e Teologia, ambas concluídas antes mesmo de meu contato direto nessa sociabilidade ilustrada. Ao longo dessa trajetória, busquei estabelecer uma dialética que integrasse o rigor da formação crítica, em seu sentido técnico e erudito, à dimensão de sociabilidade filosófica que a maçonaria sempre se mostrou em minhas leituras e interpretações mais elaboradas.

Este percurso de longa data atravessou diversas fases, todas unificadas por um esforço de rigor progressivo. A partir de 2010, com a conclusão do Mestrado em Filosofia e sob a influência das concepções estéticas e educativas de Nietzsche, iniciei uma revisão de meus escritos anteriores sobre Maçonaria. Paralelamente, passei a produzir resenhas "à solta", na acepção de Agostinho da Silva, um exercício puramente poético de experimentação existencial que, despojado de roteiros prévios, consolidou-se em uma poiesis de formas variadas.

No decorrer de 2019, motivado por interlocuções externas, decidi reposicionar meu envolvimento com a temática maçônica para assumir uma abordagem profissional. Compreendi que o rigor acadêmico seria a via mais adequada para aprofundar um processo de aproximação já amadurecido, o que significou a transição de uma perspectiva amadora, situada no âmbito do lazer e da sociabilidade fraternal, para a integração definitiva desse campo de estudos à minha prática profissional como docente.

Desde então, o desafio mais peculiar consistiu em superar uma interdição manifesta em dois planos. O primeiro refere-se à falsa premissa de alguns adeptos da fraternidade de que o tema não admite fala ou escrita para além dos círculos internos. Nesse sentido, as tentativas de cerceamento sofridas pela experimentação do site AMF3 no ano de 2019 pertencem aos anais da comédia, especialmente quando se evocou o famigerado bordão de que eu estaria a vender a maçonaria. A fofoca disseminada pretendia interditar a abordagem pública, racional e crítico acadêmica sobre o que seja o fenômeno social Maçonaria. Trata-se de uma ideia paradoxal, pois a Maçonaria possui atas registradas em juntas comerciais, rituais disponíveis na rede mundial de computadores e literatura dispersa em sebos e livrarias por todo o país. Essa fantasia de interdição revela-se anacrônica e autoritária para o cenário sociocultural brasileiro. Tal postura demonstra uma completa ausência de compreensão antropológica e filosófica sobre a mística do mistério transcendente que nos circunda enquanto seres existentes, bem como da tradição mítica presente nos manuais maçônicos. A segunda interdição, por sua vez, operava no âmbito da subjetividade e na maneira como pessoalmente articulávamos o tema entre a vida pessoal e a profissional. O avanço consistiu em perceber que não é um tema privado, mas do interesse da cidadania.

Com certa segurança, pode-se afirmar que essa tendência de interdição discursiva dos temas maçônicos decorre de uma desinformação e de um modelo de formação que tenho caracterizado como a fenomenologia do "Tio do Zap". No circuito maçônico, observa-se com frequência uma limitada capacidade de leitura, escrita e crítica social entre os adeptos dessa sociabilidade supostamente ilustrada. Não se trata de uma carência de inteligência, pois são indivíduos funcionais e dotados de discernimento, mas de uma forma específica de lidar com o mundo. Por razões diversas, a maioria dos membros desenvolveu competências voltadas às dimensões práticas da vida, como o comércio e o êxito em profissões consideradas úteis pelas classes médias. São, portanto, pessoas inteligentes, contudo desinteressadas pelas questões da filosofia e das humanidades em geral. Essa lacuna manifesta-se no uso de bordões imprecisos sobre a erudição filosófica e na replicação de frases atribuídas erroneamente a pensadores, sem o devido respaldo em textos originais ou no trabalho de scholars vinculados às ciências humanas.

Apesar desse desencontro, a persistência em abordar o tema decorre da percepção de que existe ali um fenômeno peculiar de filosofia de vida, dotado de uma história e de uma presença consistente na paisagem cultural brasileira. Não obstante outras contradições, identificam-se ao menos três características que tornam a Maçonaria um objeto de estudo valioso. Tais elementos compreendem sua estrutura democrática, ainda que limitada em variados aspectos, o protagonismo como fator fundamental da sua capilaridade no território nacional com sua consequente perduração histórica, e sua prática formativa estruturada em um aparato simbólico exercitado por uma ritualística potente. Essa prática semanal é capaz de fazer vincar o sentido da existência mesmo nas mentes mais áridas ou diante do deserto maior que caracteriza os nossos tempos modernos.

A despeito das contradições que visam interditar a reflexão filosófica ali praticada, é imperativo registrar a normalização do comércio de obras sobre a Maçonaria. Esse cenário pode ser investigado sob a ótica das transformações ocorridas desde meados da década de 1990, impulsionadas pelo fenômeno de uma editora paulista que passou a comercializar livros de forma ampla e sistematizada. Ademais, o comércio de aparatos litúrgicos não causa estranheza aos adeptos, uma vez que tais itens são vendidos em sítios eletrônicos sem qualquer impedimento, tanto por seus altos valores monetários quanto por sua forma. Curiosamente, em relação a esses produtos, jamais se ouviu a acusação de que se estaria a vender a maçonaria.

Diante dessas questões, é fundamental postular que o fenômeno da Maçonaria não pertence a uma manifestação institucional específica. O Direito assegura que uma organização, ao formular-se sob distintivos particulares, possua direitos reservados sobre sua identidade que a singulariza da paisagem dos demais fenômenos similares, contudo isso não lhe confere a prerrogativa de registrar a patente do fenômeno em sua generalidade. A garantia do Estado reside precisamente em interditar tal pretensão de exclusividade, assegurando assim a liberdade religiosa e filosófica como um direito fundamental inerente a todos os cidadãos.

Para fins de exemplificação e esclarecimento desse ponto fulcral, vale pontuar que em nossos dias a religião cristã não constitui uma marca comercial de uma igreja específica. Esse mesmo raciocínio aplica-se à Maçonaria, compreendida como um fenômeno de sociabilidade articulado em torno do que denominamos Filosofia de Vida. A atual etapa de nossa compreensão permite avançar nos estudos e pesquisas sobre esse fenômeno social, reconhecendo que a Maçonaria não consiste em uma atividade secreta, mas apresenta características de filosofias iniciáticas cuja tradição é tão remota quanto a dos Pitagóricos.

O atual estágio de reflexão representa um posicionamento consolidado após um período de maturação frente a tais interdições simbólicas. Nossa colaboração na esfera pública consiste em apresentar o fenômeno sob a perspectiva dos direitos fundamentais dos indivíduos à espiritualidade e à filosofia de vida, compreendidas como condições essenciais da pessoa em pleno gozo de sua liberdade cidadã. A partir desse pressuposto e no exercício das funções de professor, cientista e filósofo, compreendo que informar de modo científico filosófico sobre o tema constitui um serviço público relevante. Observa-se que a desinformação permite que a temática seja frequentemente agenciada para finalidades escusas e golpes diversos. A ausência de um debate qualificado na esfera pública alimenta uma mítica danosa à sociedade e aos cidadãos que, movidos pela boa-fé, buscam na sigla Maçonaria uma forma de exercer o direito de vivenciar uma experiência de fé ou de filosofia de vida.

Movidos por esses princípios de proteção de direitos e considerando que o termo maçonaria é frequentemente instrumentalizado para extorsões diversas, damos sequência ao nosso paciente trabalho reflexivo de organizar instâncias de pesquisa e debates acadêmicos sobre esse fenômeno social. Por se tratar de uma atividade fundamentada em nossa formação profissional como cientista da religião e docente na área de humanidades, o foco reside em uma abordagem técnica e acadêmica, distanciando-se de qualquer perspectiva de adesão ao fenômeno. Essa colaboração transcende a visão privativa que orbita as narrativas dos próprios adeptos para consolidar a Maçonaria como um objeto legítimo de pesquisa científica e uma questão de cidadania.

Pesquisa e Magistério

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