A relação entre o fenômeno religioso e a esfera pública é, talvez, um dos nós górdios da sociedade brasileira contemporânea. Se, por um lado, assistimos a um crescimento de fundamentalismos que ameaçam a laicidade, por outro, observamos a urgência de uma alfabetização religiosa capaz de promover a cidadania. É neste horizonte de disputas e traduções que se situa a série de diálogos "Ciências das Religiões no Espaço Público", veiculada no canal Paz e Bem.
Nesta curadoria de entrevistas, proponho um exercício de rigor acadêmico aplicado à vida cotidiana. O objetivo não é o debate teológico-confessional — legítimo em seus espaços de culto —, mas a análise do fenômeno religioso como fato social, cultural e político, sob a luz da epistemologia das Ciências das Religiões.
Um dos eixos centrais da série é a demarcação epistemológica. Ao dialogarmos com pesquisadores como a Dra. Claudete Ulrich, torna-se evidente que o cientista da religião não atua como um defensor de dogmas, mas como um analista das formas como o sagrado impacta os direitos humanos, a política e a cultura. A laicidade, portanto, não é o silenciamento da fé, mas a garantia de que nenhuma voz religiosa capture o Estado para si, assegurando a pluralidade.
A escola é o microcosmo da República. Nos diálogos com especialistas em educação (como a Dra. Nathália Martins e a Ma. Geisa Lacerda), enfrentamos o desafio do Ensino Religioso não confessional. A série denuncia vigorosamente o "racismo religioso" que vitima as tradições de matriz africana e propõe uma pedagogia da empatia, onde conhecer o outro não significa converter-se a ele, mas reconhecer sua humanidade. O lema que emerge destes encontros é claro: conhecer para respeitar, respeitar para conviver.
Não poderíamos abordar o espaço público sem tocar nas assimetrias de poder. A série investiga como discursos religiosos podem servir tanto de "mortalha" (legitimando violências contra mulheres) quanto de libertação. Ao trazermos à luz pesquisas sobre a inserção pública da voz pastoral feminina, reafirmamos que a religião também é um campo de disputa por direitos e dignidade.
O olhar científico sobre o religioso é um olhar, junto aos demais, que contribui para o debate da cidadania. Traduzir essa produção da academia para a praça pública não é apenas divulgação; é um ato político de defesa da democracia.
— Drd. Cídio Lopes de Almeida
Se você tem interesse em aprofundar essas questões, agendar uma assessoria ou palestra sobre Ciências das Religiões e Laicidade, entre em contato diretamente.
Chamar no WhatsAppAssine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
