Anotações de Estudos
Drd. Cídio Lopes de Almeida
Resumo
Esta obra oferece um panorama abrangente da história das religiões, analisando desde sistemas de crenças antigos até tradições orientais e monoteístas. O autor examina a evolução do pensamento religioso em civilizações como a egípcia, babilônica, chinesa e japonesa, destacando como o contexto social molda a alma individual. São explorados temas fundamentais como o dualismo persa, o desenvolvimento do budismo e hinduísmo na Índia e a consolidação do islamismo através do Corão e da tradição. O texto detalha as práticas rituais, as concepções de morte e as estruturas mitológicas de povos gregos, romanos, germânicos e celtas. Por fim, a pesquisa enfatiza a transição entre a mitologia clássica e a especulação filosófica, investigando como diferentes sociedades buscam o divino. Trata-se de um estudo acadêmico focado na diversidade das instituições religiosas e na sua fundamentação histórica.Considerações sobre a Introdução dos tradutores
A Introduction à la Traduction Française (Introdução à Tradução Francesa) e as notas dos editores, dirigidas por Henri Hubert e Isidore Lévy, constituem uma contribuição teórica significativa que vai além da simples transposição linguística do "Manuel d'histoire des religions" de Chantepie de la Saussaye. Os editores utilizam o espaço introdutório para reorientar a metodologia do estudo das religiões, introduzindo a perspectiva da escola sociológica francesa.
Os editores, vinculados à École des Hautes Études, justificam a tradução pela necessidade de fornecer aos estudantes franceses um instrumento de trabalho sólido, preferindo traduzir uma obra já consagrada pelo sucesso a arriscar a criação de um manual novo que poderia ser medíocre. Eles valorizam o ecletismo de Chantepie de la Saussaye, notando que o autor não se prende a nenhuma escola específica, o que confere à obra uma estabilidade capaz de sobreviver a doutrinas passageiras.
Apesar dos elogios, os editores apontam uma lacuna significativa na obra original: a sub-representação da Escola Antropológica (inglesa, alemã e holandesa). Eles destacam a importância de autores como Tylor, Robertson Smith e Frazer (autor de The Golden Bough), cujos trabalhos sobre folclore e etnografia revelaram a repetição universal de fenômenos religiosos e a importância de ritos primitivos, como o totemismo e o animismo. Os editores dedicam parte de sua introdução para "reparar a desgraça" em que a antropologia parecia ser tida no manual original, enfatizando a importância do método comparativo.
A contribuição mais profunda dos editores reside na introdução da perspectiva sociológica, influenciada por Émile Durkheim e o Année Sociologique. Eles propõem uma ruptura com as explicações puramente psicológicas ou individualistas da religião.
Fatos Sociais: Os fenômenos religiosos devem ser tratados como fatos sociais, que ocorrem necessariamente em sociedades e onde a atividade individual é condicionada pela vida em comum.
A "Autoridade Constrangedora": Os fatos religiosos possuem uma autoridade que se impõe à vontade humana, uma característica distintiva do fato social. A religião não é instintiva, mas fruto de educação, tradição e sugestão.
O Indivíduo e o Grupo: Os editores argumentam que "o homem religioso não se sente jamais senão um entre muitos" e que a consciência religiosa é, em certo sentido, a "inconsciência de si", pois o indivíduo recebe sua alma e suas crenças da sociedade.
Redefinição de Religião
O Conceito de Sagrado Hubert e Lévy criticam as definições de religião focadas na relação intelectual com o infinito ou com Deus (como as de Max Müller), pois estas não abarcam ritos formalistas ou religiões sem deuses (como o budismo). Em contrapartida, eles propõem uma definição baseada na prática e no objeto ritual:
• Administração do Sagrado: A religião é definida centralmente pela noção de Sagrado (sacré). Para os editores, a religião é a "administração do sagrado".
• Separação do Profano: O sagrado é aquilo que está separado, interdito e protegido por ritos; a religião organiza as relações entre o sagrado e o profano, bem como as interdições e purificações.
Notas Técnicas e Bibliográficas
Fenomenologia: Os editores lamentam que Chantepie tenha removido a introdução fenomenológica da segunda edição, pois ela fornecia definições e uma terminologia uniforme que eles consideravam essenciais para evitar confusões conceituais.
Atualização: Eles alongaram as bibliografias para adequar a obra ao público francês e ao estado da ciência na época.
Transcrições: Nas notas técnicas, os editores explicam que não impuseram um sistema único e rígido de transcrição de nomes estrangeiros (como os egípcios), preferindo o compromisso prático à "falsa precisão", que consideram uma "caricatura da ciência".
Em suma, as notas e a introdução dos editores franceses transformam a tradução em uma obra crítica que não apenas apresenta a história das religiões, mas também estabelece as bases metodológicas da Sociologia da Religião, deslocando o foco da teologia e da psicologia individual para as funções sociais, os ritos coletivos e a categoria do Sagrado.
Anotações sobre a obra
Capítulo I: Introdução. Tema: A fundamentação teórica da Ciência das Religiões e a classificação dos fenômenos religiosos. Tese: A ciência das religiões é uma disciplina nova (para a época) que exige uma combinação de filosofia e história. O autor defende que, embora nenhuma classificação seja perfeita, uma abordagem genealógica (histórica) é preferível a uma morfológica. O capítulo define a religião não por uma essência única, mas como um campo de estudo que deve evitar definições a priori sem justificativa filosófica, embora reconheça a importância de conceitos como animismo e fetichismo para descrever estágios religiosos.
Capítulo II: Os Povos Ditos Selvagens. Tema: As formas religiosas das sociedades não civilizadas ou "naturais" (África, América, Oceania, Mongóis). Tese: A religião destes povos é dominada pelo animismo, fetichismo e totemismo. O autor argumenta que, embora existam diferenças geográficas, há uma uniformidade nas práticas mágicas e na crença em espíritos. No caso da América (México e Peru), reconhece-se um desenvolvimento superior, mas ainda preso à barbárie, onde rituais sangrentos e mitos complexos coexistem. O capítulo destaca a importância do mana e do tabu nas religiões do Pacífico como conceitos centrais de força e interdição.
Capítulo III: Os Chineses. Tema: O sincretismo religioso na China, englobando o antigo Sinismo, o Confucionismo, o Taoismo e o Budismo. Tese: A religião chinesa é caracterizada por uma mistura onde o indivíduo participa simultaneamente de três cultos. A base é o antigo Sinismo, uma religião de Estado voltada para a ordem natural e o culto aos antepassados, sem casta sacerdotal e profundamente prática. Confúcio não é visto como um inovador religioso, mas como um moralista que sistematizou a tradição para fins sociais e políticos. O Taoismo representa o misticismo e a magia, degradando-se de uma filosofia elevada (Lao-tse) para superstições populares.
Capítulo IV: Os Japoneses. Tema: O Shintoísmo e sua interação com o Budismo. Tese: O Shintoísmo ("caminho dos deuses") é uma religião baseada no culto à natureza e aos antepassados (Kami), intimamente ligada à divindade do Imperador e ao patriotismo. O texto destaca que o Shintoísmo primitivo carecia de dogmas e código moral explícito, baseando-se na pureza ritual e na obediência à natureza e ao Imperador. A história religiosa do Japão é marcada pelo sincretismo (Ryobu-Shinto), onde divindades locais foram assimiladas como manifestações de Budas.
Capítulo V: Os Egípcios. Tema: A evolução da religião egípcia, do fetichismo local à teologia solar e ao culto dos mortos. Tese: A religião egípcia não é um monoteísmo primitivo, mas um amálgama de cultos locais que evoluiu. A tese central é a distinção entre a crença popular (focada em deuses locais, animais sagrados e magia) e a teologia sacerdotal (que tentou unificar os deuses sob o culto solar de Râ e criou sistemas cosmogônicos complexos). O capítulo enfatiza a importância colossal do culto aos mortos e da esperança na imortalidade (Osíris), onde a magia e a moralidade se entrelaçam para garantir a vida no além.
Capítulo VI: Os Babilônios e os Assírios. Tema: O politeísmo semítico da Mesopotâmia, sua mitologia astral e a predominância da magia. Tese: A religião babilônica é um politeísmo naturalista que se desenvolveu sob influência sacerdotal em uma teologia astral. Marduk (Babilônia) e Assur (Assíria) ascendem como deuses supremos nacionais, refletindo a centralização política. O texto destaca o profundo pessimismo em relação à vida após a morte (um lugar de pó e trevas) e a onipresença da demonologia e das práticas de exorcismo na vida cotidiana.
Capítulo VII: Os Sírios e os Fenícios. Tema: O naturalismo sensual e por vezes cruel dos semitas ocidentais. Tese: A religião fenícia/síria é caracterizada por um culto às forças da natureza, muitas vezes personificadas em casais divinos (Baal e Baalat/Astarté). O autor argumenta que esta religião tem um caráter prático e algo grosseiro, focado na fertilidade e aplacamento de divindades temíveis através de sacrifícios (incluindo humanos) e prostituição sagrada, sem desenvolver uma mitologia rica como a grega.
Capítulo VIII: Os Israelitas. Tema: A transformação do javismo (culto nacional) em monoteísmo ético universal. Tese: A religião de Israel ocupa um lugar único. Ela evoluiu de um henoteísmo, onde Javé era o deus guerreiro e nacional de Israel (distinto dos deuses cananeus), para um monoteísmo ético absoluto. Essa evolução foi impulsionada pela luta dos Profetas contra o sincretismo e o naturalismo, culminando na ideia de que Javé exige justiça moral e não apenas culto ritual. O texto distingue claramente entre a religião popular pré-exílica e o judaísmo legalista pós-exílico centrado na Lei e na comunidade.
Capítulo IX: O Islã. Tema: A fundação, expansão e desenvolvimento dogmático da fé muçulmana. Tese: O Islã não é apenas a obra de Maomé, mas o resultado de um processo histórico que inclui o desenvolvimento da Tradição (Hadith) e da Lei (Fiqh). O autor rejeita a visão de Maomé como impostor ou epilético, vendo-o como um profeta convicto que pregou um monoteísmo estrito e o juízo final. O capítulo analisa como a teologia ortodoxa se solidificou contra o racionalismo (Mo'tazilites) e como o Sufismo surgiu para satisfazer necessidades místicas que o legalismo do Corão não atendia.
Capítulo X: Os Hindus. Tema: A continuidade e a diversidade da experiência religiosa na Índia, do Vedismo ao Hinduísmo moderno. Tese: A religião indiana é marcada por uma tendência ao monismo espiritualista e ao panteísmo. O capítulo traça a evolução do ritualismo védico (sacrifício) para a especulação filosófica das Upanishads (identidade Atman-Brahman). O Budismo e o Jainismo são apresentados como reações que buscam a libertação do ciclo de renascimentos (Samsara) sem a autoridade védica. O Hinduísmo posterior é visto como um sincretismo que reabsorve cultos populares e heróis épicos (Krishna, Rama) em grandes sistemas sectários (Vishnuísmo, Shivaísmo).
Capítulo XI: Os Persas. Tema: O dualismo zoroastrista e a luta moral entre o Bem e o Mal. Tese: O Mazdeísmo é uma religião ética revelada, fundamentada no dualismo entre Ahura Mazda (o Bem/Luz) e Ahriman (o Mal/Trevas). A tese central é que a vida é uma batalha contínua onde o homem, através da pureza e da justiça, ajuda o Bem a triunfar. Diferente do pessimismo indiano, o espírito persa é prático, valorizando a agricultura, a verdade e a vida, com uma escatologia otimista que prevê a vitória final do Bem e a ressurreição.
Capítulo XII: Os Gregos. Tema: O antropomorfismo, a religião cívica e a ausência de dogmas sacerdotais. Tese: A religião grega é caracterizada por um politeísmo antropomórfico (fixado por Homero) onde os deuses são humanos idealizados, mas limitados. O autor destaca a tensão entre a religião oficial da pólis (cívica e ritualista) e as necessidades religiosas individuais, que encontraram refúgio nos Mistérios (Elêusis, Orfismo) e na Filosofia. A tese é que a falta de uma casta sacerdotal forte permitiu a liberdade do mito e da filosofia, mas eventualmente levou à decadência da fé tradicional.
Capítulo XIII: Os Romanos. Tema: O formalismo jurídico e o caráter estatal da religião romana. Tese: A religião romana distingue-se pela sua sobriedade, falta de mitologia própria e ênfase no ritualismo e no direito sagrado. Os deuses são numina (poderes abstratos) funcionais, não personalidades poéticas como na Grécia. A religião é inseparável do Estado. A evolução histórica mostra a passagem de uma religião agrária e cívica para um sincretismo cosmopolita sob o Império, onde cultos orientais (Isis, Mitra) preencheram o vazio emocional deixado pelo formalismo romano.
Capítulo XIV: Eslavos e Germanos (e Celtas). Tema: O paganismo da Europa do Norte e Central e sua mitologia. Tese: Devido à escassez de fontes diretas e à contaminação cristã nas fontes tardias (como as Eddas), é difícil reconstruir essas religiões com precisão. Eslavos: Tinham um dualismo vago e culto à natureza, mas as fontes são pobres e tardias. Germanos: A religião germânica não é um monoteísmo primitivo, mas um politeísmo sem mitos morais profundos, marcado pelo fatalismo e fidelidade ao clã. O autor adverte contra a idealização romântica desta religião, notando que a mitologia nórdica (Edda) reflete uma fase tardia e aristocrática (Vikings). Celtas: Destaca-se o poder do sacerdócio organizado (Druidas), único entre os povos arianos da Europa, e a crença na imortalidade.
Balanço
O balanço crítico do "Manuel d'histoire des religions" revela uma obra valorizada pela sua estabilidade e riqueza factual, mas marcada por uma tensão metodológica entre o autor e seus editores franceses. Henri Hubert e Isidore Lévy, vinculados à École des Hautes Études, elogiam o "ecletismo louvável" de Chantepie de la Saussaye, notando que sua recusa em aderir a uma única escola teórica permitiu que o livro sobrevivesse a doutrinas passageiras e servisse como um instrumento de trabalho sólido para os estudantes. Contudo, a obra sofreu críticas severas pela remoção, na segunda edição alemã, da introdução fenomenológica original; os editores franceses lamentaram essa supressão, argumentando que ela privou o manual de definições rigorosas e de uma terminologia uniforme, essenciais para evitar confusões conceituais na incipiente ciência das religiões. O próprio Chantepie justificou essa alteração pela necessidade de condensar a enorme massa de materiais acumulados e pela dificuldade de sistematizar a fenomenologia, preferindo uma ordem etnográfica e histórica.
Historicamente, a tradução francesa (1904) é um documento fundamental para compreender a ascensão da Sociologia da Religião na França, pois os editores utilizaram o aparato crítico para introduzir as perspectivas de Émile Durkheim e do Année Sociologique. Hubert e Lévy apontaram que o manual subestimava a Escola Antropológica inglesa (Tylor, Frazer) e falhava em tratar os fenômenos religiosos como "fatos sociais" obrigatórios e coletivos, propondo em seu lugar uma definição de religião centrada na "administração do sagrado". A obra, portanto, não é apenas um repositório de dados sobre religiões antigas (como as dos egípcios, babilônios e hindus), mas um testemunho do debate acadêmico do início do século XX, onde a descrição histórica tradicional de Chantepie foi confrontada e suplementada pela análise sociológica francesa que buscava explicar a religião através da estrutura social e da psicologia coletiva.
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