CHANTEPIE DE LA SAUSSAYE, Pierre Daniël. Manuel d'histoire des religions: traduit sur la seconde édition allemande sous la direction de Henri Hubert et Isidore Lévy. Paris: Librairie Armand Colin, 1904.

Anotações de Estudos

Drd. Cídio Lopes de Almeida

Resumo

Esta obra oferece um panorama abrangente da história das religiões, analisando desde sistemas de crenças antigos até tradições orientais e monoteístas. O autor examina a evolução do pensamento religioso em civilizações como a egípcia, babilônica, chinesa e japonesa, destacando como o contexto social molda a alma individual. São explorados temas fundamentais como o dualismo persa, o desenvolvimento do budismo e hinduísmo na Índia e a consolidação do islamismo através do Corão e da tradição. O texto detalha as práticas rituais, as concepções de morte e as estruturas mitológicas de povos gregos, romanos, germânicos e celtas. Por fim, a pesquisa enfatiza a transição entre a mitologia clássica e a especulação filosófica, investigando como diferentes sociedades buscam o divino. Trata-se de um estudo acadêmico focado na diversidade das instituições religiosas e na sua fundamentação histórica.

Considerações sobre a Introdução dos tradutores

A Introduction à la Traduction Française (Introdução à Tradução Francesa) e as notas dos editores, dirigidas por Henri Hubert e Isidore Lévy, constituem uma contribuição teórica significativa que vai além da simples transposição linguística do "Manuel d'histoire des religions" de Chantepie de la Saussaye. Os editores utilizam o espaço introdutório para reorientar a metodologia do estudo das religiões, introduzindo a perspectiva da escola sociológica francesa.

Os editores, vinculados à École des Hautes Études, justificam a tradução pela necessidade de fornecer aos estudantes franceses um instrumento de trabalho sólido, preferindo traduzir uma obra já consagrada pelo sucesso a arriscar a criação de um manual novo que poderia ser medíocre. Eles valorizam o ecletismo de Chantepie de la Saussaye, notando que o autor não se prende a nenhuma escola específica, o que confere à obra uma estabilidade capaz de sobreviver a doutrinas passageiras.

Apesar dos elogios, os editores apontam uma lacuna significativa na obra original: a sub-representação da Escola Antropológica (inglesa, alemã e holandesa). Eles destacam a importância de autores como Tylor, Robertson Smith e Frazer (autor de The Golden Bough), cujos trabalhos sobre folclore e etnografia revelaram a repetição universal de fenômenos religiosos e a importância de ritos primitivos, como o totemismo e o animismo. Os editores dedicam parte de sua introdução para "reparar a desgraça" em que a antropologia parecia ser tida no manual original, enfatizando a importância do método comparativo.

A contribuição mais profunda dos editores reside na introdução da perspectiva sociológica, influenciada por Émile Durkheim e o Année Sociologique. Eles propõem uma ruptura com as explicações puramente psicológicas ou individualistas da religião.

Fatos Sociais: Os fenômenos religiosos devem ser tratados como fatos sociais, que ocorrem necessariamente em sociedades e onde a atividade individual é condicionada pela vida em comum.

A "Autoridade Constrangedora": Os fatos religiosos possuem uma autoridade que se impõe à vontade humana, uma característica distintiva do fato social. A religião não é instintiva, mas fruto de educação, tradição e sugestão.

O Indivíduo e o Grupo: Os editores argumentam que "o homem religioso não se sente jamais senão um entre muitos" e que a consciência religiosa é, em certo sentido, a "inconsciência de si", pois o indivíduo recebe sua alma e suas crenças da sociedade.

Redefinição de Religião

O Conceito de Sagrado Hubert e Lévy criticam as definições de religião focadas na relação intelectual com o infinito ou com Deus (como as de Max Müller), pois estas não abarcam ritos formalistas ou religiões sem deuses (como o budismo). Em contrapartida, eles propõem uma definição baseada na prática e no objeto ritual:

• Administração do Sagrado: A religião é definida centralmente pela noção de Sagrado (sacré). Para os editores, a religião é a "administração do sagrado".

• Separação do Profano: O sagrado é aquilo que está separado, interdito e protegido por ritos; a religião organiza as relações entre o sagrado e o profano, bem como as interdições e purificações.

Notas Técnicas e Bibliográficas

Fenomenologia: Os editores lamentam que Chantepie tenha removido a introdução fenomenológica da segunda edição, pois ela fornecia definições e uma terminologia uniforme que eles consideravam essenciais para evitar confusões conceituais.

Atualização: Eles alongaram as bibliografias para adequar a obra ao público francês e ao estado da ciência na época.

Transcrições: Nas notas técnicas, os editores explicam que não impuseram um sistema único e rígido de transcrição de nomes estrangeiros (como os egípcios), preferindo o compromisso prático à "falsa precisão", que consideram uma "caricatura da ciência".

Em suma, as notas e a introdução dos editores franceses transformam a tradução em uma obra crítica que não apenas apresenta a história das religiões, mas também estabelece as bases metodológicas da Sociologia da Religião, deslocando o foco da teologia e da psicologia individual para as funções sociais, os ritos coletivos e a categoria do Sagrado.

Anotações sobre a obra

Capítulo I: Introdução. Tema: A fundamentação teórica da Ciência das Religiões e a classificação dos fenômenos religiosos. Tese: A ciência das religiões é uma disciplina nova (para a época) que exige uma combinação de filosofia e história. O autor defende que, embora nenhuma classificação seja perfeita, uma abordagem genealógica (histórica) é preferível a uma morfológica. O capítulo define a religião não por uma essência única, mas como um campo de estudo que deve evitar definições a priori sem justificativa filosófica, embora reconheça a importância de conceitos como animismo e fetichismo para descrever estágios religiosos.

Capítulo II: Os Povos Ditos Selvagens. Tema: As formas religiosas das sociedades não civilizadas ou "naturais" (África, América, Oceania, Mongóis). Tese: A religião destes povos é dominada pelo animismo, fetichismo e totemismo. O autor argumenta que, embora existam diferenças geográficas, há uma uniformidade nas práticas mágicas e na crença em espíritos. No caso da América (México e Peru), reconhece-se um desenvolvimento superior, mas ainda preso à barbárie, onde rituais sangrentos e mitos complexos coexistem. O capítulo destaca a importância do mana e do tabu nas religiões do Pacífico como conceitos centrais de força e interdição.

Capítulo III: Os Chineses. Tema: O sincretismo religioso na China, englobando o antigo Sinismo, o Confucionismo, o Taoismo e o Budismo. Tese: A religião chinesa é caracterizada por uma mistura onde o indivíduo participa simultaneamente de três cultos. A base é o antigo Sinismo, uma religião de Estado voltada para a ordem natural e o culto aos antepassados, sem casta sacerdotal e profundamente prática. Confúcio não é visto como um inovador religioso, mas como um moralista que sistematizou a tradição para fins sociais e políticos. O Taoismo representa o misticismo e a magia, degradando-se de uma filosofia elevada (Lao-tse) para superstições populares.

Capítulo IV: Os Japoneses. Tema: O Shintoísmo e sua interação com o Budismo. Tese: O Shintoísmo ("caminho dos deuses") é uma religião baseada no culto à natureza e aos antepassados (Kami), intimamente ligada à divindade do Imperador e ao patriotismo. O texto destaca que o Shintoísmo primitivo carecia de dogmas e código moral explícito, baseando-se na pureza ritual e na obediência à natureza e ao Imperador. A história religiosa do Japão é marcada pelo sincretismo (Ryobu-Shinto), onde divindades locais foram assimiladas como manifestações de Budas.

Capítulo V: Os Egípcios. Tema: A evolução da religião egípcia, do fetichismo local à teologia solar e ao culto dos mortos. Tese: A religião egípcia não é um monoteísmo primitivo, mas um amálgama de cultos locais que evoluiu. A tese central é a distinção entre a crença popular (focada em deuses locais, animais sagrados e magia) e a teologia sacerdotal (que tentou unificar os deuses sob o culto solar de Râ e criou sistemas cosmogônicos complexos). O capítulo enfatiza a importância colossal do culto aos mortos e da esperança na imortalidade (Osíris), onde a magia e a moralidade se entrelaçam para garantir a vida no além.

Capítulo VI: Os Babilônios e os Assírios. Tema: O politeísmo semítico da Mesopotâmia, sua mitologia astral e a predominância da magia. Tese: A religião babilônica é um politeísmo naturalista que se desenvolveu sob influência sacerdotal em uma teologia astral. Marduk (Babilônia) e Assur (Assíria) ascendem como deuses supremos nacionais, refletindo a centralização política. O texto destaca o profundo pessimismo em relação à vida após a morte (um lugar de pó e trevas) e a onipresença da demonologia e das práticas de exorcismo na vida cotidiana.

Capítulo VII: Os Sírios e os Fenícios. Tema: O naturalismo sensual e por vezes cruel dos semitas ocidentais. Tese: A religião fenícia/síria é caracterizada por um culto às forças da natureza, muitas vezes personificadas em casais divinos (Baal e Baalat/Astarté). O autor argumenta que esta religião tem um caráter prático e algo grosseiro, focado na fertilidade e aplacamento de divindades temíveis através de sacrifícios (incluindo humanos) e prostituição sagrada, sem desenvolver uma mitologia rica como a grega.

Capítulo VIII: Os Israelitas. Tema: A transformação do javismo (culto nacional) em monoteísmo ético universal. Tese: A religião de Israel ocupa um lugar único. Ela evoluiu de um henoteísmo, onde Javé era o deus guerreiro e nacional de Israel (distinto dos deuses cananeus), para um monoteísmo ético absoluto. Essa evolução foi impulsionada pela luta dos Profetas contra o sincretismo e o naturalismo, culminando na ideia de que Javé exige justiça moral e não apenas culto ritual. O texto distingue claramente entre a religião popular pré-exílica e o judaísmo legalista pós-exílico centrado na Lei e na comunidade.

Capítulo IX: O Islã. Tema: A fundação, expansão e desenvolvimento dogmático da fé muçulmana. Tese: O Islã não é apenas a obra de Maomé, mas o resultado de um processo histórico que inclui o desenvolvimento da Tradição (Hadith) e da Lei (Fiqh). O autor rejeita a visão de Maomé como impostor ou epilético, vendo-o como um profeta convicto que pregou um monoteísmo estrito e o juízo final. O capítulo analisa como a teologia ortodoxa se solidificou contra o racionalismo (Mo'tazilites) e como o Sufismo surgiu para satisfazer necessidades místicas que o legalismo do Corão não atendia.

Capítulo X: Os Hindus. Tema: A continuidade e a diversidade da experiência religiosa na Índia, do Vedismo ao Hinduísmo moderno. Tese: A religião indiana é marcada por uma tendência ao monismo espiritualista e ao panteísmo. O capítulo traça a evolução do ritualismo védico (sacrifício) para a especulação filosófica das Upanishads (identidade Atman-Brahman). O Budismo e o Jainismo são apresentados como reações que buscam a libertação do ciclo de renascimentos (Samsara) sem a autoridade védica. O Hinduísmo posterior é visto como um sincretismo que reabsorve cultos populares e heróis épicos (Krishna, Rama) em grandes sistemas sectários (Vishnuísmo, Shivaísmo).

Capítulo XI: Os Persas. Tema: O dualismo zoroastrista e a luta moral entre o Bem e o Mal. Tese: O Mazdeísmo é uma religião ética revelada, fundamentada no dualismo entre Ahura Mazda (o Bem/Luz) e Ahriman (o Mal/Trevas). A tese central é que a vida é uma batalha contínua onde o homem, através da pureza e da justiça, ajuda o Bem a triunfar. Diferente do pessimismo indiano, o espírito persa é prático, valorizando a agricultura, a verdade e a vida, com uma escatologia otimista que prevê a vitória final do Bem e a ressurreição.

Capítulo XII: Os Gregos. Tema: O antropomorfismo, a religião cívica e a ausência de dogmas sacerdotais. Tese: A religião grega é caracterizada por um politeísmo antropomórfico (fixado por Homero) onde os deuses são humanos idealizados, mas limitados. O autor destaca a tensão entre a religião oficial da pólis (cívica e ritualista) e as necessidades religiosas individuais, que encontraram refúgio nos Mistérios (Elêusis, Orfismo) e na Filosofia. A tese é que a falta de uma casta sacerdotal forte permitiu a liberdade do mito e da filosofia, mas eventualmente levou à decadência da fé tradicional.

Capítulo XIII: Os Romanos. Tema: O formalismo jurídico e o caráter estatal da religião romana. Tese: A religião romana distingue-se pela sua sobriedade, falta de mitologia própria e ênfase no ritualismo e no direito sagrado. Os deuses são numina (poderes abstratos) funcionais, não personalidades poéticas como na Grécia. A religião é inseparável do Estado. A evolução histórica mostra a passagem de uma religião agrária e cívica para um sincretismo cosmopolita sob o Império, onde cultos orientais (Isis, Mitra) preencheram o vazio emocional deixado pelo formalismo romano.

Capítulo XIV: Eslavos e Germanos (e Celtas). Tema: O paganismo da Europa do Norte e Central e sua mitologia. Tese: Devido à escassez de fontes diretas e à contaminação cristã nas fontes tardias (como as Eddas), é difícil reconstruir essas religiões com precisão. Eslavos: Tinham um dualismo vago e culto à natureza, mas as fontes são pobres e tardias. Germanos: A religião germânica não é um monoteísmo primitivo, mas um politeísmo sem mitos morais profundos, marcado pelo fatalismo e fidelidade ao clã. O autor adverte contra a idealização romântica desta religião, notando que a mitologia nórdica (Edda) reflete uma fase tardia e aristocrática (Vikings). Celtas: Destaca-se o poder do sacerdócio organizado (Druidas), único entre os povos arianos da Europa, e a crença na imortalidade.

Balanço

O balanço crítico do "Manuel d'histoire des religions" revela uma obra valorizada pela sua estabilidade e riqueza factual, mas marcada por uma tensão metodológica entre o autor e seus editores franceses. Henri Hubert e Isidore Lévy, vinculados à École des Hautes Études, elogiam o "ecletismo louvável" de Chantepie de la Saussaye, notando que sua recusa em aderir a uma única escola teórica permitiu que o livro sobrevivesse a doutrinas passageiras e servisse como um instrumento de trabalho sólido para os estudantes. Contudo, a obra sofreu críticas severas pela remoção, na segunda edição alemã, da introdução fenomenológica original; os editores franceses lamentaram essa supressão, argumentando que ela privou o manual de definições rigorosas e de uma terminologia uniforme, essenciais para evitar confusões conceituais na incipiente ciência das religiões. O próprio Chantepie justificou essa alteração pela necessidade de condensar a enorme massa de materiais acumulados e pela dificuldade de sistematizar a fenomenologia, preferindo uma ordem etnográfica e histórica.

Historicamente, a tradução francesa (1904) é um documento fundamental para compreender a ascensão da Sociologia da Religião na França, pois os editores utilizaram o aparato crítico para introduzir as perspectivas de Émile Durkheim e do Année Sociologique. Hubert e Lévy apontaram que o manual subestimava a Escola Antropológica inglesa (Tylor, Frazer) e falhava em tratar os fenômenos religiosos como "fatos sociais" obrigatórios e coletivos, propondo em seu lugar uma definição de religião centrada na "administração do sagrado". A obra, portanto, não é apenas um repositório de dados sobre religiões antigas (como as dos egípcios, babilônios e hindus), mas um testemunho do debate acadêmico do início do século XX, onde a descrição histórica tradicional de Chantepie foi confrontada e suplementada pela análise sociológica francesa que buscava explicar a religião através da estrutura social e da psicologia coletiva.

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