A teologia filosófica da Maçonaria: Ecos de um Iluminismo Selvagem
Drd. Cídio Lopes de Almeida
A produção de narrativas sobre a realidade e os diversos temas do cotidiano constitui um direito inerente ao exercício da cidadania. O desafio contemporâneo surge quando os mecanismos de distribuição de informação amplificam processos deliberados de falsificação do real, disseminando a percepção de que a verdade é puramente subjetiva. Esse fenômeno compromete a existência de ideias universais ou consensos mínimos, fragmentando a experiência coletiva em olhares isolados que inviabilizam a manutenção de um espaço comum partilhado.
No âmbito das sociabilidades ilustradas, especificamente nos fenômenos maçônicos, observa-se uma intersecção peculiar entre o desejo de deter o rigor científico na descrição do real e o direito de produzir discursos sobre a realidade como exercício de cidadania. Tal configuração suscita questionamentos fundamentais. Sob a influência da ideologia iluminista, cultiva-se nessas instâncias a expectativa de que seu discurso possua o estatuto de ciência, não apenas no rigor acadêmico, mas como antítese ao dogma religioso. Essa postura reflete as correntes do século XIX que buscavam romper tanto com a tutela do Ancien Régime quanto, primordialmente, com a autoridade das instituições religiosas.
No recorte dos fenômenos maçônicos, a definição da Maçonaria como uma filosofia de vida, recorrente nos documentos da Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), não implica que o maçom seja um filósofo no sentido estrito da legislação trabalhista brasileira, a qual exige o título de bacharel ou licenciado. Tampouco se deve esperar das narrativas maçônicas uma performance acadêmica equivalente aos pares da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF). Trata-se, portanto, de um estatuto distinto e de um fenômeno social particular. Quando um adepto produz uma resenha e perfila autores diletos, como Albert Pike (1809 – 1891) ou o pastor presbiteriano James Anderson (1679 – 1739), sem o devido diálogo com a literatura acadêmica das humanidades e baseando-se em interpretações de Pitágoras que ignoram a fortuna crítica filosófica, o resultado é um saber que se distancia tanto da filosofia acadêmica quanto das disciplinas das ciências humanas e das Ciências das Religiões.
Essa produção textual nos conduz a um questionamento fundamental, se, por um lado, o rigor científico não pode interditar tal atividade de sociabilidade, como devemos classificar essa literatura de adepto? O caminho mais óbvio seria o da pseudociência, o que implicaria uma valoração negativa e sumária desqualificação. Contudo, sob a ótica das Ciências das Religiões, tal abordagem seria deletéria para a compreensão de um fenômeno de sentido humano, no qual as filosofias de vida situam-se em proximidade com as tradições religiosas. Trata-se da mesma dimensão religiosa que os maçons frequentemente negam pertencer, embora admitam, contraditoriamente, possuir uma natureza religiosa.
Uma análise das estruturas normativas da Maçonaria, particularmente em torno do conceito de "regularidade", revela o que a sociologia de Pierre Bourdieu define como uma disputa de poder e posição dentro de um "campo" específico. No entanto, tal debate não constitui uma obra de Direito em sentido estrito. Não haveria respaldo na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para que essas normas tivessem repercussão na esfera pública ou incidência sobre o exercício da cidadania de indivíduos pertencentes a grupos considerados "irregulares" por outras potências. Embora a construção argumentativa possa assemelhar-se a uma peça jurídica, seus efeitos restringem-se ao âmbito interno do fenômeno. Essas normas podem ser comparadas às regras de um condomínio ou de uma associação cultural, carecendo de poder de persecução penal ou abrigo nas leis nacionais. Da mesma forma, ao discorrer sobre alquimia ou sobre a proporção ideal de um templo, o adepto não possui a prerrogativa legal de assinar um projeto de construção civil ou de químico.
Para finalizar, cabe indagar se o conjunto das narrativas maçônicas não constituiria, em última análise, uma Teologia Filosófica. Essa hipótese fundamenta-se em duas referências centrais que orientam esta formulação. A primeira reside na análise de Pierre Hadot (1922 – 2010) em seu artigo sobre a física e a poesia no Timeu de Platão; a segunda remete à obra do neoplatônico Proclo Lício (412 – 485), especificamente aos seus escritos de Teologia Filosófica, matriz pela qual ele interpreta a filosofia platônica. A questão justifica-se pela notável semelhança entre as temáticas maçônicas contemporâneas e os tópicos abordados por ambos os autores. Nesse sentido, quando o maçom discorre sobre política, física, química ou religião, emerge uma discursividade que, embora próxima da religiosa, apresenta uma distinção fundamental: ela articula temas das ciências modernas e da filosofia natural, recorrendo frequentemente à Filosofia Antiga (VI a.C. – V d.C.) sob a perspectiva do valor e da significação. Tal produção assemelha-se ainda, apesar das variações temporais em tela, às proposições de Pico della Mirandola (1463 – 1494) sobre a prestidigitação e a magia que, sob a ótica da história das ciências, podem ser consideradas preâmbulos essenciais ao pensamento moderno.
De certo modo, já em Pico della Mirandola havia um esforço em reposicionar tais questões sob uma nova chave, visto que o termo prestidigitador já apresentava ambiguidades em sua época. A fronteira entre a falsificação, que associava o prestidigitador ao falsário, foi refutada naquele período e, entre nós, pode ser reinterpretada sob a ótica da simbólica, capaz de criar horizontes de sentido humano. Trata-se de um objeto de estudo de uma filosofia ocupada primordialmente com o tema do Ser, bem como das Ciências das Religiões, justamente por configurar uma questão que não apenas estampa um horizonte ontológico, a exemplo da ideia do Ser Fascinador de Vicente Ferreira da Silva (1916 – 1963), mas porque, enquanto simbólica, estabelece permanentemente a ponte entre o corrente e o transcendente. O símbolo participa de realidades entre mundos e, na qualidade de expressão da realidade humana, reveste o mundo outrora desprovido de significado com o sentido humano. Nesse cenário, os maçons, como construtores sociais, ofereceriam sua contribuição peculiar ao momento presente por meio de sua teologia filosófica.
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