Saber é Poder

Saber é Poder

 

Saber é Poder

 

Prof. Me. Cídio Lopes de Almeida

LOPES DE ALMEIDA, C. Saber é Poder. Ed. Rev. São Paulo: AMF3. 2020. Acessível em < http://amf3.com.br/saber-poder >

 

Saber é poder, eternizou o dito de Francis Bacon sobre aquilo que iria marcar profundamente a modernidade.

 

O saber que todos procuram nos dias hoje pode “dotar” ou não o buscador (pesquisador) de poderes. Quando se faz um curso superior, por exemplo, permite que a pessoa entre em um campo de atuação, de exercício de um certo poder.

 

A procura por grupos de sociabilidade, especialmente a maçonaria ou grupos como Pró-vida, Rosa Cruz, Fazenda Figueira/Trigueirinho, tem forte marca desse desejo de “saber poder”. Ampliando a reflexão sobre “cognição”, podemos mesmo afirmar que as disputas por essa ou aquela universidade, esse ou aquele curso superior, são, igualmente, uma procura social por saberes que irão fornecer um dado poder.  

 

A primeira lição que se deve ter no que toca a maçonaria, em particular, é qual tipo de saber poder se cultiva nela. Mesmo que o desejo de quem procura em ser maçom, um exemplo, seja o “saber poder” do mercado, isto é, a pessoa está obcecada por entrar num grupo que lhe dê vantagens nos jogos da vida, do mercado. Porém, vale lembrar, o saber maçônico dos dias de hoje é eminentemente um saber sobre si. Trata-se de algo “humanista”. Parece simples demais esse “segredo”. Aqueles fixados em saberes que mais se assemelham a um cartão de crédito sem fatura irão duvidar. Humanamente é compreensível essa insistência no desejo inicial do interessado em maçonaria ou nas demais “sociabilidades”. Cabe aos membros dessas sociabilidades encaminhar a pessoa ao ponto de perceber seus desejos, afinal podemos sim ter desejo de estabilidade material, e a realidade dos grupos a que pretendem entrar.

 

 

O problema está na forma como lidamos com nós mesmos. Conhecer a si mesmo só tem simplicidade na frase. Na vida real a coisa é bem complexa. A organização psíquica é complexa e a tarefa de aparência “simplista” que é “conhecer a si” revela-se complicada, demorada, e comumente evitada por grande parte das pessoas. Olhar para si vai muito além daquilo que o espelho reflete de nossa imagem externa, pois rapidamente descobrimos que até mesmo esse “si” não é algo dado, mas construído desde nosso nascimento através das nossas relações afetivas e sociais. Ver o si em mim mesmo já é um problema, pois numa sociedade machista, para citar um exemplo do problema, o “si” da mulher precisa ser refundado. Ela não deverá aceitar ver um “si” submisso, que culturalmente lhe foi imposto. 

 

O “saber poder” da maçonaria, como das demais sociabilidades, se concentram nesse campo, nessa delimitação de ação que é o indivíduo. As implicações que cada um pretende fazer com esse saber, o saber sobre si mesmo, deve ser da esfera de cada pessoa. Ser sujeito da própria história é algo muito relevante dentro da maçonaria, dado sua marca liberal. Isso não implica que eu possa fazer o quem bem entender com esses saberes. Evoca-se com muito frequência a necessidade de haver valores ou jeitos de se comportar na vida social, pois ser sujeito da própria história, ser um liberal, não quer dizer licença para fazer o “que dê na teia”, agir segundo impulsos. Porém, é preciso dar a liberdade de uso do saber; conhecendo-se através dos métodos de trabalhos maçônicos ou das demais sociabilidades, espera-se que cada um utilize esse saber na “edificação” da sua história pessoal inserida na vida social. O que implica por partes das sociabilidades, incluindo a maçonaria, em uma discrição
da instituição, pois quem deve aparecer são os indivíduos que dela fazem parte.


Devem aparecer no sentido apregoado pelo cristianismo, a saber, “ser sal da terra”, isto é, ser um modelo de conduta para os demais; ser alguém que inspire os demais a sua volta, através de uma vida pessoal modelo.  O que é um grande desafio e que não pode produzir o efeito contrário, de alguém que se acha melhor do que os outros.  De outro lado, exige-se das pessoas que governam essa ou aquela organização de sociabilidade um árduo exercício de discrição institucional, lidando com o assunto mais perigoso para a condição humana: o poder. Saber governar o grupo e colocá-lo a serviço da formação humana, sobretudo dos que são membros, é a tarefa mais desafiadora, pois humanamente será comum o “poder subir na cabeça”. 

 

Para colocar a instituição de sociabilidade a serviço da sociedade onde está inserida, a internet tem se tornado um ótimo instrumento. Ter novos membros consiste na forma pedagógica mais utilizada por todas as sociabilidades e se estendermos a reflexão, também é o método das igrejas e filosofias de vida. No caso da Maçonaria, a utilização  da internet ocorre de forma muito tímida e consiste nos sites da organizações locais, denominadas de Lojas, ou das organizações regionais, chamadas de Grande Lojas ou Grandes Orientes. O que contrasta com experiências ditas “espúrias”, isto é, grupos que se utilizam da metodologia maçônica para se autoproclamarem organizações maçônicas e com isso “angariar” adeptos pela internet. Hoje em dia ao “digitar” o nome maçonaria certamente irá aparecer uma dessas experiências lhe propondo “revelar” o segredo, isto é, lhe dar um saber com poderes. 

 

 

Dentro do espírito liberal não caberia uma coibição dessas práticas por vias de Lei. O mais salutar seria uma disputa de ideias, uma dialética no sentido lá Grécia Antiga.  Seria o caminho para um aprendizado para todos; fugir das afirmações fascistas que um grupo ou indivíduos proferem contra o outro. É preciso, no caso dos grupos que denomino históricos, apresentar que uma Loja Maçônica vai além de um site, e que o saber-poder aí cultivado não é mágico, mas da esfera filosófica e científica. Neste sentido as três Ordens Maçônicas Históricas pouco tem feito. São elas, Grande Oriente do Brasil (GOB) e seus respectivas seções Estaduais, Confederação Maçônica do Brasil e suas representadas nos Estados – Grandes Lojas Estaduais/GLESP e a Confederação da Maçonaria Simbólica e seus respectivos Grandes Orientes Estaduais/GOP SP. Creio que apenas comunicados em seus sites seja insuficiente, uma política de formação pública, através de palestras; bolsas de incentivo científico à produção de monografias, etc, seriam necessários. 

 

Apesar dos efeitos negativos, entre eles os que mais aparentam esquemas de pirâmides ou métodos de doações das Igrejas neopentecostais, os sites tem sido uma excelente fonte de prospecção de bons maçons. Geralmente, por experiência localizada em uma Loja, pessoas com alto índice de leitura; no geral com maior nível educacional; ambos se comparado aos membros que chegam à essa sociabilidade pelas vias tradicionais. Certamente a ferramenta internet é polissêmica, multiuso, multifacetada. Nela tem de tudo, o desafio é não se perder na vastidão desse mar e não confundir com a mediação feita por ela, com a pessoa que habitualmente encontramos; o face-a-face da filosofia e Emanuel Levinás.  Outra faceta da internet nessa busca pelo saber-poder da maçonaria e suas congêneres, é que o virtual nessa modalidade dos computadores que conhecemos e manipulamos hoje, pois há vários virtuais na vida humana; nossa própria linguagem já é um tipo de virtual, é que ela acaba por distanciar a nós de nós mesmos. Parece trocadilho, mas não é. Se a internet propicia que pessoas tomem conhecimento do que é Maçonaria, essa mesma ferramenta pode também auxiliar na resistência de entrar em contato consigo. Comumente fazemos resistência em entrar em contato com nossas próprias questões, geralmente fruto de dor, traumas. Será corrente, nesse sentido, maçons que nunca entraram em contato consigo próprio; alguns irão expressar essa resistência vociferando ódio contra tudo, tampando com isso a demanda de entrar em contato consigo mesmo. Quanto mais interessados no saber-poder, sobretudo quando alimentado pelas fantasias ordinárias do que é maçonaria, mais resistência em olhar para si as pessoas terão.

 

Lembremos que esse “si”, já falado acima, também é problemático. Pois essa ideia cartesiana e iluminista de um si, de um eu “claro e distinto”, não é simples. O que acaba por aparecer no cotidiano da sociabilidade maçônica.

Considerado tudo isso, você pode nos escrever. ([email protected]) Em termos virtuais, cabe-nos apenas fornecer um tipo de informação, que em geral não tem o “poder” de formação. Temos um repertório de mais de 6 mil livros de filosofia e seus correlatos, como cultura religiosa, teologia, etc.

 

Sempre lembrando que somos professor de filosofia interessado em sociabilidades filosóficas.